O lançamento agora em novembro do streaming Discovery+ no Brasil promete um prato cheio para os fãs daquilo que podemos chamar de reality shows baseados no “turismo da interação”. Falo daqueles programas muito sedutores que nos prendem diante da tela para testemunhar recortes das vidas de gente que parece diametralmente oposta a nós – e é claro que esse julgamento, que faz parte da diversão, carrega um tanto de preconceitos. Alguns exemplos desse tipo de atração são Botched, em que cirurgiões consertam plásticas mal-feitas; Quilos Mortais, que acompanha a luta de pessoas obesas; e Dra. Sandra Lee, a Rainha dos Cravos (o nome me parece autoexplicativo).
Mesmo quem não assina o novo streaming, porém, consegue acompanhar um dos carros-chefes da TLC, canal do grupo Discovery, que é um programa absolutamente viciante: o icônico 90 dias para casar. Iniciado em 2014, a atração foi capaz de reunir uma enorme audiência no mundo inteiro e gerou uma vasta quantidade de spin-offs. Seu mote é o de acompanhar o encontro de um casal, quase sempre unido via internet, em que uma parte é composta por um norte-americano e outro, de uma pessoa de outro país.
Embora haja exceções, normalmente a parte “exótica” deste casal é alguém de uma nação subdesenvolvida. Ao aceitar participar do programa, eles têm 90 dias para decidir se irão se casar. O número redondo se dá porque é o tempo que se leva para um estrangeiro nos Estados Unidos se tornar ilegal – depois disso, é preciso obter o visto.
É difícil explicar em palavras o que há de tão hipnótico neste reality show, mas dá para arriscar algumas hipóteses. A principal delas talvez seja que 90 dias para casar, embora seja uma produção norte-americana, é absolutamente debochado em relação ao autocentrismo americano. Ou seja: o olhar trazido em todos os episódios é sempre o de um sujeito que vê a sua cultura como a regra, como a verdade absoluta, e que o cônjuge em potencial é alguém que precisa se adaptar a ela.
Uma hipótese para o sucesso do programa é que, embora seja uma produção norte-americana, ele é debochado em relação ao autocentrismo americano.
Assim, dá para dizer que o programa tem um forte viés antropológico, uma vez que acaba trazendo um retrato fascinante sobre o amor intercultural: se, a longo prazo, a convivência entre dois sujeitos que resolvem se comprometer já é difícil, as barreiras se tornam ainda maiores quando a questão da cultura entra em jogo.
A primeira temporada exibida na Band é “90 dias para casar: antes dos 90 dias”, em que seis casais são acompanhados pelas câmeras bisbilhoteiras da TLC. Vale lembrar que as temporadas são isoladas e, por isso, não faz qualquer diferença começar a acompanhar o programa por qualquer uma delas. Além disso, não há competições nem prêmios. A diversão é a de apenas testemunhar o que duas pessoas dizem e fazem quando confrontadas uma com as outras – e, claro, dar uma de voyeur do relacionamento alheio, tentando descobrir o que é amor e o que é cilada.
“Antes dos 90 dias” deve ter sido escolhida pela Band por trazer um dos casais mais famosos do programa, formado pelo americano Paul Staehle e a brasileira Karine Martins. Eles se conheceram via internet e ele se mandou para encontrar a amada em Tonatins, no interior do Amazonas, uma pequena cidade a qual só se chega por um trajeto de dois dias de barco.
Paul parece desenhado para ser o estereótipo do norte-americano alienado. Com 34 anos, ele ainda mora com os pais e tem um histórico de registros policiais por ter incendiado a casa de uma ex-namorada (o fator dependência dos pais e histórico criminal parece ser uma constante nos partidões deste programa). Após conhecer Karine, ele junta tudo que conseguiu acumular (outra constante: muitas vezes, os pretendentes dizem gastar o dinheiro da aposentadoria para fazer a viagem) para vir ao Brasil. Para deleite dos espectadores, especialmente os brasileiros, ele parece apavorado no Amazonas: vem todo coberto com roupas para evitar mosquitos e arrasta verdadeiros containers com bugigangas solicitadas por Karine.
A ótica algo imperialista dos casais do programa é que os nubentes dos países de terceiro mundo parecem acreditar ter tirado a sorte grande ao “pescar” um norte-americano – que, por outro lado, sempre dá a entender que sua nacionalidade (e consequente green card) é o que tem de melhor a oferecer. É a regra do relacionamento entre Sean (47 anos) e Abby (de 20), do Haiti, casal cujo grande conflito é por ela não querer se desvencilhar de outro ex-namorado americano.
Outro casal marcante é a americana Darcey Silva e o holandês Jesse Meester. Com 18 anos a mais que Jesse, Darcey – uma mulher toda plastificada e com hábitos arrogantes – ficou tão icônica que participou de quatro spin-offs do programa e ganhou um reality show próprio, Darcey & Stacey, também do TLC, que divide com a irmã gêmea. A quantidade de brigas entre Darcey e Jesse foi, novamente, um deleite voyeurístico para quem viu. Parte dos desentendimentos se davam justamente pela distância entre os americanos e a franqueza colocada como típica dos holandeses. Em uma cena, por exemplo, o padrasto de Jesse diz a Darcey que ele é muito areia para o seu caminhãozinho. A série de bizarrices continua com o romance da americana Angela, de 52 anos, e do nigeriano Michael, de 30 anos, que é obcecado por Donald Trump.

Atualmente, a Band exibe a temporada “90 dias para casar: o outro lado”, de 2019, igualmente promissora. Já acompanhamos o romance da americana Jenny, de 60 anos, que larga as filhas e netos para ir viver com o indiano Sumit – que, quando a conheceu, usava a foto de outra pessoa para seduzi-la. Há também Laura, de 51 anos, que vai para Qatar viver com Aladin, de 29, e Corey, de 31 anos, que entra em pânico quando vai (com a mãe) tomar vacinas para se mudar para o Equador com a noiva Evelin.
E, para nossa alegria, há o retorno de Paul e Karine. Grávida, Karine está aprendendo inglês para “brigar melhor” com Paul, como ela mesmo conta. Ao voltar ao Brasil, Paul traz uma bolsa de maternidade a prova de balas. Promete, portanto, ser mais uma temporada parar rir (por fora) e chorar (por dentro) das bizarrices alheias e, sobretudo, pelo diagnóstico que o programa faz das formas que o Brasil é visto por quem não o conhece.
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