Não vamos repetir sobre como a televisão nos proporciona produtos inspiradores, reflexivos e de extrema qualidade. Isso já é assunto batido nessa coluna. Mas devemos sempre lembrar que algumas séries merecem serem vistas tamanho impacto que pode causar em seu espectador. É o caso de Top of the Lake, premiadíssima série de 2013, disponível na Netflix, e que ganhará uma segunda temporada em 2017.
Inicialmente planejada como minissérie, a produção australiana foi exibida pelo Sundance Channel nos EUA, pela BBC 2 na Inglaterra e pela UKTV na Austrália. Dentre diversos prêmios e indicações, a produção foi exibida na íntegra no Festival de Sundance e no Festival de Berlim. Embora seja dividido em episódios, a série mais parece um longa-metragem, tendo a resolução do mistério reservada para seus minutos finais – o que não prejudica em nada sua narrativa, já que o que nos interessa não é nem saber o que aconteceu, mas o que move cada personagem.
Lembrando muito a ótima The Killing (só que melhor), Top of the Lake começa quando Tui (Jacqueline Joe), uma criança de 12 anos, é encontrada em um lago congelante, aparentemente tentando suicídio. Grávida de cinco meses, a menina se recusa a revelar o nome do pai da criança. Quando Tui desaparece, a detetive Robin Griffin (Elizabeth Moss, excelente), especialista em casos envolvendo crianças, é encarregada de localizá-la. Robin está na cidade para visitar sua mãe, que sofre de câncer. Com a ajuda do detetive Al Parker (David Wenham), Robin inicia as investigações. As suspeitas caem rapidamente no pai de Tui, Matt (Peter Mullan), traficante pesado da região e que parece comandar cada habitante da cidade. Há, ainda, um estranho clã de mulheres que moram em containers no meio do nada em busca de resposta após passarem por relacionamentos traumáticos. A pequena comunidade é liderada por G.J (Holly Hunter), que ao contrário do que se espera de uma líder espiritual, acha todos os problemas relatados uma chatice.

Criada por Jane Campion (O Piano, O Retrato de Uma Mulher) a série é feminista em seus 350 minutos. Há, em cada discurso, uma forte descrição sobre cultura do estupro na nossa sociedade. Ao escrever todos os episódios, Campion retrata a divisão de sexos e a opressão dos homens por todas as mulheres em cenas bastante impactantes, como na revelação de um passado doloroso da detetive, na forma como as mulheres são tratadas em seus locais de trabalho, além de temas como pedofilia. Assim, o roteiro pega pesado no psicológico de cada personagem e nenhum deles carrega uma história fácil para o espectador.
Intimista em sua narrativa, Top Of The Lake trabalha com o silêncio e o que há de mais triste no ser humano.
Mas para contemplar Top of the Lake é necessário deixar perguntas para trás. “Quem matou”, “por que”, “como”, “quem é” são quase irrelevantes. É claro que, no final, recebemos quase todas as respostas, mas o que importa é a natureza humana. É perceber como aquela comunidade consegue viver quase que isolada do resto do mundo, rodeada por um lago opressor (talvez o verdadeiro protagonista da série), montanhas claustrofóbicas, um clima frio, em um vazio e uma imensidão asfixiante. Com isso, todos os personagens parecem agir com seus instintos mais primitivos. Intimista em sua narrativa, Top of the Lake trabalha com o silêncio e o que há de mais triste no ser humano. Há, sim, uma bela contemplação na melancolia ali retratada, mas até mesmo os momentos de alegria parecem trazer alguma estranheza, uma negatividade, como se tudo estivesse realmente tomado pela corrupção humana.
O grande aplauso fica por conta de Elizabeth Moss e sua poderosa Robin Griffin. Embora seu plot não seja lá o dos mais originais, o talento de Moss e o excelente roteiro a fazem ser uma das personagens mais marcantes dessa boa safra de séries. Moss consegue passar tanta raiva e dor com seu olhar inquieto que o público sente toda sua revolta apenas pelo tom de voz. Sempre paranoica, Robin não abandona seu passado e está sempre em busca de uma normalidade que nunca vem.

Junto dela, Peter Mullan encarna um homem nojento e desprezível, que transita entre um pai apaixonado pela sua filha, um traficante local, um homem envelhecido com saudades da mãe e um pai violento e pedófilo. David Wenham interpreta o detetive e colega de Robin, que parece nutrir um amor pela companheira de trabalho, ao mesmo tempo em que seu carisma carrega algo estranho. Por fim, todo o elenco de apoio é eficiente, mas a personagem mais instigante fica por conta de Holly Hunter e sua G.J. Parecendo uma Melisandre (de Game of Thrones), mais humana e menos profética, Hunter encara sua personagem de maneira tão estranha que acaba sendo o alívio cômico da série, ao mesmo tempo em que suas palavras causam conforto ou inquietação, sendo peça principal em toda narrativa, mesmo que não aparece fisicamente em diversas cenas.
E ainda que Top of the Lake prefira a sutileza de contar uma boa história aos poucos, deixando a ação somente para quando importa, não é uma produção leve. Suas cenas são carregadas de dor, o que pode não ser algo fácil para alguns espectadores mais desavisados. Cenas como a de um determinado personagem caindo de um penhasco causam uma desesperança no ser humano – vista nos olhos de Moss, em atuação incrível – a raiva de uma mãe tentando proteger seu bebê é de um entendimento universal, assim como o choque de Robin ao descobrir, finalmente, o grande segredo, algo tão surreal e, ao mesmo tempo, tão fácil de acreditar e de presenciar por aí.
Mesmo que recorra a alguns artifícios já batidos (a detetive que fica obcecada com o caso e monta um mapa dos suspeitos na parede, o passado perturbador, a grande reviravolta final), Top of the Lake é atmosférica e sensorial. Contanto com um direção de fotografia impecável, a série parece um pouco perdida na grade de programação pessoal, mas que vale muito a pena para quem busca um roteiro cuidadoso, respeitoso com seus personagens e extremamente pessoal sobre o que é ser mulher, repleto de poesia e simbolismos. Uma pequena obra-rima.
Em tempo, a segunda temporada trará de volta Elizabeth Moss e contará com a participação de Nicole Kidman.