Alguns esportes são territórios tradicionais da masculinidade, onde o vigor físico e a agressividade — muitas vezes à beira da brutalidade — parecem encenar, de forma amplificada, aquilo que culturalmente se espera dos homens. São modalidades que se aproximam da guerra. O hóquei no gelo, esporte com o qual a nossa tropicalidade tem pouca afinidade, é um deles. Talvez por isso Rivalidade Ardente, série canadense que se tornou um fenômeno internacional de audiência, cause tamanho impacto cultural.
Baseada na série de romances da escritora canadense Rachel Reid, a produção independente da Crave conta a improvável história de amor entre dois astros do hóquei profissional. Shane Hollander (Hudson Williams) é o que costuma ser chamado de atleta exemplar. Disciplinado, joga por um popular time de Montreal e tem sua carreira conduzida com mão de ferro pela mãe, de origem japonesa. Cada passo que dá é cuidadosamente calculado para que brilhe tanto dentro quanto fora da quadra — patrocinadores e imprensa esperam dele uma conduta impecável.
O russo Ilya Rozanov (Connor Storrie, ótimo) é seu oposto. Sanguíneo, irreverente e extremamente competitivo, é o astro ascendente de uma equipe de Boston. Em quadra, joga como se lutasse não apenas pela vitória do time, mas também por sua própria sobrevivência — distante do autoritarismo do regime russo e do pai, que o trata como um soldado.
Quando os caminhos de Shane e Ilya se cruzam, a rivalidade explode. Afinal, ambos são as grandes estrelas jovens do hóquei. Só que, além da competitividade esperada, seus confrontos fazem nascer entre os dois uma atração física à qual tentam resistir — sem sucesso. Durante anos, fazem de tudo para reduzi-la a encontros sexuais furtivos, sempre às escondidas e evitando qualquer vínculo afetivo. Até que o inevitável acontece: os dois se apaixonam.
A química entre Williams e Storrie incendeia a tela. Mas não são apenas as cenas eróticas que explicam o sucesso de Rivalidade Ardente. O que realmente sustenta a série é seu romantismo assumido, herdado da tradição folhetinesca dos livros de Rachel Reid. Há algo profundamente subversivo em narrar histórias de amor entre homens em um ambiente saturado de testosterona e homofobia como o do hóquei no gelo.
O que realmente sustenta a série é seu romantismo assumido, herdado da tradição folhetinesca dos livros de Rachel Reid.
E a de Shane e Ilya não é a única trama da série. Paralelamente à história do casal protagonista, Rivalidade Ardente acompanha também a jornada de Scott Hunter (François Giraud, da série Os Bórgias), um jogador veterano e celebridade do esporte que, já próximo dos 40 anos, nunca conseguiu assumir publicamente sua homossexualidade. Preso a uma vida de silêncio e solidão, ele encontra a possibilidade de afeto ao conhecer, por acaso, Kip (Robbie Graham Kuntz), atendente de um café. Mas a regra continua a mesma: relacionamentos gays são considerados incompatíveis com o esporte e precisam permanecer em segredo.
Ao mesmo tempo em que desafia certos padrões, Rivalidade Ardente também se apoia neles. A série segue de perto a cartilha melodramática do amor impossível, que precisa atravessar inúmeras barreiras para existir. Bastante erótica, com cenas quentes que mobilizaram tanto o público LGBTQIA+ quanto o feminino, a produção acabou se transformando em um fenômeno de audiência, ajudando a plataforma a quebrar recordes.
No fim das contas, o que torna Rivalidade Ardente tão intrigante é justamente essa combinação improvável: um esporte brutal, um universo profundamente masculino e histórias de amor que insistem em florescer ali onde, por muito tempo, acreditou-se que elas simplesmente não poderiam existir.
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