Quem liga a TV ou plataforma de streaming sabe que o cenário é cada vez mais saturado de dramas médicos ou comédias que transformam o hospital em mero pano de fundo para excentricidades individuais – o que vai de Scrubs a Dr. Ken, passando por Royal Pains e Childrens Hospital. Neste contexto, St. Denis Medical surge com uma promessa sedutora: olhar para a saúde a partir do chão do hospital, sem heroísmo, sem glamour e sem falsas soluções.
Criada por Justin Spitzer e Eric Ledgin – dupla responsável por Superstore e American Auto -, a série aposta no gênero mockumentary para retratar o cotidiano de um hospital regional do Oregon que lida com falta de recursos, excesso de demandas e profissionais exaustos. Há uma clara ambição. No entanto, o resultado é ambíguo.
St. Denis Medical apresenta o hospital como um organismo em permanente contenção, o que demonstra mérito na maneira como constrói o ambiente. Há pacientes que se acumulam, os equipamentos são insuficientes e as decisões administrativas são desconectadas da realidade do atendimento. Spitzer se notabilizou por trabalhos em que o mockumentary foi escolha, e seu retorno aqui não acontece por mero recurso de estilo herdado de The Office, mas como um mecanismo eficaz em traduzir o improviso constante que rege o trabalho em serviços públicos essenciais. Torna-se, então, um evidente acerto de convergir forma e conteúdo.
Também merece destaque o elenco, capitaneado por Allison Tolman (a Mary, de Good Girls), que constrói uma Alex convincente como enfermeira-chefe recém-promovida, dividida entre a empatia com a equipe e a necessidade de exercer autoridade em um ambiente que resiste a qualquer hierarquia. David Alan Grier (de Joe Pickett) entrega um médico veterano que equilibra cinismo e humanidade sem recorrer à caricatura, enquanto Wendi McLendon-Covey (a eterna Beverly de Os Goldbergs) encontra nuances interessantes em Joyce, a diretora administrativa que acredita no poder da motivação individual para compensar as falhas estruturais. São personagens que funcionam porque não pedem adesão emocional fácil. Há ambiguidade e contradição em doses equivalentes em cada um, que são corriqueiramente pequenos diante do tamanho do problema que enfrentam.
E é nessas ambivalências que o humor da série emerge. O texto de St. Denis Medical não surge de frases de efeito. A equipe de roteiristas (não à toa, um setor tão precarizado quanto o médico no contexto estadunidense) entende que o riso funciona melhor quando vem de observações laterais, de comentários ditos no limite do esgotamento. Heather Jack, Bill Benz e Matt Sohn, que mais dirigiram episódios até aqui (6, 4 e 3, respectivamente) se esforçam em construir cenas com múltiplos planos cômicos, recompensando o espectador atento. A partir destas escolhas, fica nítida a maturidade e o domínio técnico do show, algo cada vez mais raro em comédias de rede aberta – importante frisar que, nos EUA, a produção é exibida na NBC.
Porém, nem tudo são flores. É justamente quando se observa o que St. Denis Medical escolhe não fazer que surgem suas maiores limitações. As origens dos problemas que recaem sobre um hospital regional claramente com deficiências orçamentárias não são abordadas de maneira mais incisiva. As engrenagens políticas, econômicas e sociais que mantêm a crise da saúde pública estadunidense não ganham espaço. Mesmo temas como financiamento público de saúde e a crise ética das seguradoras (cada vez mais em busca de maximizar lucros, ainda que isso custe vidas) raramente são citadas, e quando são acontecem de maneira tangencial, diluídas com uma leveza incoerente com o assunto. O sistema de saúde, afinal, permanece como uma abstração incômoda, mas raramente como um antagonista concreto.
A série compreende que o hospital não é um espaço de heroísmo isolado, mas um reflexo direto das escolhas coletivas feitas fora de suas paredes.
Essa escolha narrativa torna St. Denis Medical um humor mais confortável, posto que prefere observar o colapso do sistema (no estilo da tirinha em que o cachorro toma café com um incêndio em torno dele, enquanto afirma que está tudo bem) sem realmente encará-lo. Ao contrário do que Superstore fez nas temporadas iniciais, em que tentou radicalizar seu olhar sobre o trabalho precarizado, aqui a crítica social parece constantemente contida, com receio de romper o pacto de leveza que se espera de uma comédia exibida em horário nobre. Ou seja, há uma série cheia de boas intenções, mas um tanto acovardada.
Isso não significa que St. Denis Medical seja irrelevante ou descartável. É preciso admitir que há inteligência, cuidado e potencial de crescimento evidentes. A série compreende que o hospital não é um espaço de heroísmo isolado, mas um reflexo direto das escolhas coletivas feitas fora de suas paredes. Falta, talvez, confiar mais nessa premissa e permitir que o humor se torne também um instrumento de desconforto, não apenas de alívio.
Acredito que é possível afirmar que St. Denis Medical funciona melhor como retrato humano do trabalho em saúde do que como comentário incisivo sobre o sistema que o sustenta – ou o sabota. O espectador encontra uma comédia competente, com um elenco principal e de apoio (o verdadeiro responsável pelas “piadas prontas”) genuinamente engraçados – olho em Bruce (Josh Lawson) e Matt (Mekki Leeper), pequenas pérolas da produção. Ainda assim, fica a sensação de que a recusa em se aprofundar torna tudo muito limpinho em um ambiente claramente contaminado. É como se limpassem a ferida, mas não se interessassem em entender as motivações para que ela siga aberta.
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