Vinte anos depois de a equipe documental de The Office registrar o cotidiano caótico da Dunder Mifflin, Greg Daniels retorna ao universo que o consagrou com uma proposta que parece, ao mesmo tempo, uma homenagem e um teste de resistência à própria nostalgia. Em The Paper, parceria com Michael Koman (Nathan for You), a câmera se transfere da empresa de papel para um pequeno jornal de Ohio, o Toledo Truth Teller, adquirido pela mesma corporação que outrora controlou a Dunder Mifflin. A ideia é engenhosa: se o papel — símbolo de uma era em extinção — foi o centro do humor e da melancolia no original, agora o foco se desloca para outro artefato em vias de desaparecimento, o jornal impresso.
O problema é que a engenhosidade do conceito demora a se converter em ritmo. Os primeiros episódios de The Paper parecem travados entre a reverência ao passado e a hesitação diante de um presente em que o formato mockumentary já não é novidade. Há graça, há timing, há boas ideias — mas a série ainda não sabe bem qual história quer contar.
Domhnall Gleeson encarna Ned Sampson, um ex-vendedor de papel reciclado que, sem experiência jornalística, assume o posto de editor-chefe do Truth Teller com a missão de reviver o jornal gastando o mínimo possível. O personagem é ambíguo, ora ingênuo, ora idealista; um tipo que a série tenta emoldurar como herói desastrado, mas cuja identidade se dissolve a cada episódio. Gleeson é hábil o bastante para sustentar essa indecisão, embora o roteiro raramente saiba se deseja rir dele ou torcer por ele.
A ideia é engenhosa: se o papel — símbolo de uma era em extinção — foi o centro do humor e da melancolia no original, agora o foco se desloca para outro artefato em vias de desaparecimento, o jornal impresso.
Ao redor de Ned, o elenco é tão irregular quanto promissor. Chelsea Frei faz de Mare Pritti, repórter subaproveitada, a consciência silenciosa do jornal — uma espécie de Pam e Jim fundidos em um só corpo. Já Sabrina Impacciatore, como a espalhafatosa Esmerelda Grand, rouba a cena a cada aparição, em uma performance que mistura vaidade, desespero e ironia, num registro próximo da Valentina de The White Lotus com sotaque editorial. É nela que a série encontra seu ponto mais vivo: uma figura que satiriza o colapso ético da imprensa digital ao mesmo tempo em que parece ter plena consciência de que vive dentro de uma paródia.
Quando The Paper se permite escapar da sombra de The Office, surge algo genuinamente interessante. O episódio “Scam Alert!” é o ponto de virada: a narrativa ganha ritmo, o humor físico se ajusta ao absurdo cotidiano e, pela primeira vez, a redação do Truth Teller parece um organismo vivo — uma pequena comunidade tentando resistir ao naufrágio. Essa dimensão comunitária, de fracassos compartilhados e ideais frágeis, aproxima a série mais de Parks & Recreation do que de seu antecessor direto. A piada se torna menos sobre o ridículo dos personagens e mais sobre sua obstinação em fazer sentido num mundo que já não os leva a sério.
O pano de fundo jornalístico, por sua vez, funciona como uma metáfora transparente para o próprio estado da comédia televisiva: uma forma em declínio tentando provar sua relevância em meio a algoritmos e plataformas. Daniels e Koman parecem conscientes disso, e The Paper tem momentos de autorreflexão brilhantes — como a vinheta de abertura que mostra jornais sendo usados para forrar gaiolas e embalar peixe. Há, contudo, um limite claro entre o comentário e a repetição: o olhar metalinguístico nunca chega a se converter em discurso.
Ao fim da temporada, The Paper não se consolida como herdeira de The Office, mas tampouco fracassa em sua tentativa de reinterpretar o legado. É uma série sobre a persistência do ofício — seja o do jornalismo, seja o da comédia — em meio à irrelevância programada. E talvez resida aí sua força discreta: entre tropeços e lampejos, The Paper fala sobre a coragem de continuar imprimindo, mesmo quando o mundo inteiro já aprendeu a rolar a tela.
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