Ryan Murphy é um dos roteiristas mais importantes da indústria do entretenimento. Não entrando em juízo de valor, ele é responsável por uma das séries mais lucrativas dos últimos anos (Glee), alfinetou o mundo das cirurgias plásticas (Nip/Tuck), criou diálogos verborrágicos em uma época em que séries adolescentes eram ingênuas (Popular) e foi consagrado no Emmy e no Globo de Ouro com o telefilme The Normal Heart, no qual narra o início da epidemia da AIDS e o esforço dos ativistas da época. Assim, é com ansiedade que o público espera, ano após ano, o tema abordado em mais uma temporada de American Horror Story, antologia iniciada em 2011.
O sucesso de Murphy, porém, se confunde com sua falta de habilidade em manter a qualidade de suas criações. Arrisco a dizer que nenhuma série comandada por ele por mais de três temporadas conseguiu uma linearidade, sempre derrapando e levando a audiência embora. Porém, após a decepcionante quarta temporada de American Horror Story: Freak Show, o público volta a confiar em Murphy, agora dentro de um hotel, com personagens mais interessantes, uma ultraviolência assustadora e Lady Gaga.
Na estreia de American Horror Story: Hotel, duas garotas suecas fazem check-in no Hotel Cortez, em Los Angeles, mesmo incomodadas com o cheiro forte de mofo, gemidos estranhos pelos corredores e uma Kathy Bates assustadora avisando-as que não há wi-fi. Embora a história se passe nos tempos atuais, a partir do momento em que entramos no hotel, voltamos uns bons 60 anos, em uma eficiente direção de arte. Algumas pessoas morrem de maneira violenta dentro dos quartos, por razões que ainda não sabemos, mas que chamam a atenção do detetive John Lowe (Wes Bentley), que parece ter uma história pessoal com o próprio hotel. Ao mesmo tempo, um potencial comprador aparece tentando comprar o local e tirar os hóspedes de dentro.

Hotel traz, ao menos em seu início, a única coisa linear na produção de Murphy: todos os personagens estão em busca de redenção, almas perdidas presas dentro de um lugar que mais parece um purgatório.
Logo após, uma série de bizarrices grotescas invadem a tela para deleite do público que andava decepcionado com os rumos da antologia. Há uma sutil, porém importante, diferença desta estreia para o início de suas últimas duas temporadas (Coven e Freak Show). A série andava ensaiando um roteiro mais dramático, tentando alcançar uma densidade nos personagens que dificilmente convencia, orquestrado por uma atmosfera assustadora e uma luxúria que chocava.
Em Hotel, Ryan Murphy e Brad Falchuk (também criador de AHS) parecem querer abandonar o melodrama e partir para muito sexo, sangue, orgias e fantasmas com objetos fálicos estuprando hóspedes que se hospedam para se drogar. Hotel traz, ao menos em seu início, a única coisa linear na produção de Murphy: todos os personagens estão em busca de redenção, almas perdidas presas dentro de um lugar que mais parece um purgatório.
Para o quinto ano, a direção de arte caprichou na criação de um hotel absolutamente fascinante e assustador (tão bom ou melhor que o hospício, em Asylum). Criado pelo designer Mark Worthington, o cenário lembra muito o famoso Overlook Hotel (O Iluminado), com claras referências ao diretor Stanley Kubrick, em cenas que remetem não só a clássica adaptação de Stephen King, mas a 2001: Uma Odisseia no Espaço. Dirigido com eficiência, as cenas conseguem facilmente criar um clima sufocante. É quase possível sentir o cheiro de mofo e a sujeira do lugar, transformando o hotel em um personagem vivo logo em seus primeiros minutos.

E mesmo para quem não se importa nem um pouco com Lady Gaga, American Horror Story sempre dependeu da força das personagens interpretadas por Jessica Lange, que resolveu sair da série após a última temporada. Assim, a importância de ser a personagem mais marcante recai sobre Gaga, que parece bem a vontade representando a dona do hotel com estranhos hábitos, como fazer sexo com estranhos para depois matá-los e se banhar com sangue. Porém, ainda é cedo para afirmar se a cantora é uma boa atriz. Restrita a caras e bocas, Lady Gaga teve poucos diálogos, parecendo mais que estava dentro de algum clipe de alguma música do que realmente sendo a protagonista de uma série.
Murphy mostra uma certa evolução. Bebendo da fonte de David Fincher e David Lynch, ele filma de maneira nervosa, deixando o público inquieto enquanto passeia em um ambiente claustrofóbico, tudo isso em apenas 90 minutos. Há, ainda, uma interessante crítica a alienação de crianças presas em mundos tecnológicos e viciadas em videogames. É mais empolgante, por exemplo, do que todos os episódios de Coven e Freak Show juntos. A grande dúvida fica mesmo se Murphy conseguirá manter o ritmo – ou ao menos a atmosfera – durante as 12 semanas restantes. Com Scream Queens no ar e logo American Crime Story estreando, Murphy parece repetir fórmulas em cada nova série. Sua sorte, ainda, é que o público não parece cansado.