Uma discussão recorrente na literatura diz respeito aos direitos exercidos pelos escritores sobre a sua obra e sua vida depois de sua morte. Esse debate talvez tenha encontrado a sua melhor exposição em A Mulher Calada, livro ensaio em que a jornalista Janet Malcolm analisava os relatos biográficos sobre a trágica poeta Sylvia Plath – alguns deles engendrados pelo seu ex-marido, Ted Hughes, que lhe causou muitos sofrimentos.
Mas o que dizer então sobre as sessões de terapia de uma autora famosa? Ao longo de três anos, a cultuada escritora Joan Didion – conhecida por seus roteiros de cinema e por obras como O Ano do Pensamento Mágico – registrou, em cento e cinquenta páginas, relatos das sessões que manteve com o psiquiatra Roger MacKinnon. Esses escritos foram encontrados em sua escrivaninha pouco depois de sua morte, em 2021, e eram direcionados ao seu marido John Gregory Dunne, falecido em 2003. Daí surge o título.
Os relatos foram unificados e publicados recentemente no Brasil no livro Para John (editora HarperCollins, 2025; tradução de Marina Vargas). Sua leitura causa sensações conflitantes. Há um deleite em desfrutar da prosa bem escrita de uma grande escritora; mas isso não apaga o desconforto perante a bisbilhotice sobre o relato íntimo que certamente ela não gostaria que chegasse ao público.
Uma “biografia não autorizada” de Joan Didion e de sua filha

Ao longo das mais de 200 páginas de Para John, Didion descreve, com uma surpreendente objetividade, detalhes sobre os encontros com o seu psiquiatra, cujas sessões giravam sobretudo em lidar com uma questão séria: a preocupação que ela e o marido tinham sobre a filha, Quintana. Já adulta à época da análise, Quintana havia sido adotada pelo casal e enfrentava a depressão e o alcoolismo. O medo iminente era sobre a possibilidade de suicídio.
Ao mesmo tempo, para poder conduzir essa terapia no intuito de salvar a filha (Quintana se consultava ao mesmo tempo com outro psiquiatra, e ambos os médicos dialogavam sobre a sua situação), Joan Didion passa a revisitar a própria vida. Ela buscava entender o seu passado e lidar com a culpa velada de que poderia ter provocado o sofrimento de Quintana de alguma forma.
As situações relatadas por Didion são profundamente humanas e tratadas de maneira franca, provocando uma identificação fácil em qualquer um que já vivenciou a criação de filhos.
As situações relatadas por Didion são profundamente humanas e tratadas de maneira franca, provocando uma identificação fácil em qualquer um que já vivenciou a criação de filhos. Elas vão desde questões relativamente banais (como um debate sobre assistir ao filme A Noite dos Mortos Vivos quando Quintana era criança teria a prejudicado) a outras bem mais profundas. Uma delas envolve as dúvidas de Joan Didion sobre a adoção da filha e os temores sobre traumas que pudessem ser mais genéticos do que causados pela educação que ela recebeu e o meio em que cresceu.
Em boa parte das páginas, as sessões são descritas na estrutura de diálogos diretos entre a escritora e Roger MacKinnon, o que traz muito dinamismo à leitura. Pulsa nas palavras registradas a tensão de uma mãe (mas, de forma vicária, também do pai, com quem tudo era compartilhado) que revisita as possibilidades de que o excesso de proteção (e também de sucesso) tenha prejudicado a filha.

Contudo, o principal destaque de Para John está nas luzes que traz à vida da escritora, o que também esclarece questões sobre o seu processo criativo. A crítica literária viu neste livro póstumo o embrião das ideias que posteriormente gerariam O Ano do Pensamento Mágico (em que escreve sobre a morte de John Dunne e de Quintana, em um curto intervalo de tempo) e Noites Azuis (livro de memórias em que fala de Quintana e do próprio envelhecimento).
Há muitos detalhes sobre a criação de Joan Didion como uma filha do pós-guerra, e o quanto isso moldou a sua família e as suas relações. Isso acaba posicionando Para John como uma espécie de biografia não-autorizada da escritora, o que pode ser um deleite para os seus muitos fãs.
Mas vale lembrar que isso acontece com a exposição do que ela tinha de mais íntimo, ocorrido justamente no momento em que baixava a guarda ao longo de anos de terapia. Ainda que seja uma obra com qualidades inegáveis, fica no ar a sensação de uma invasão passível de muitos questionamentos éticos.
PARA JOHN | Joan Didion
Editora: HarperCollins;
Tradução: Marina Vargas;
Tamanho: 224 págs.;
Lançamento: Agosto, 2025.
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