Há um ditado popular que versa que “a gente pode até sair da terra, mas a terra não sai da gente”. Isso é comprovado pela grande quantidade de romances de formação que tratam sobre os impactos da terra natal em personagens que lutam para escapar dela, mas, mesmo quando conseguem, passam a vida em uma espécie de prestação de contas com a realidade que lhes deu origem. Filha (Companhia das Letras, 2025), da escritora gaúcha Manoela Sawitzki, se situa nessa seara de obra com tons autobiográficos em que uma jovem se confronta com seu passado difícil, uma vez que cresceu em um lar dominado por um pai violento.
A protagonista se chama Manu, e ela vive em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul nomeada apenas apenas como S. (a autora é natural de Santo Ângelo). Filha caçula de uma família com sete filhos, Manu se sente um tanto isolada e outsider naquele minúsculo universo fechado em si – uma sensação difícil de explicar para quem nunca passou por isso.
A menina cresce e passa pelas angústias da adolescência, que, embora causem imensos sofrimentos, são até esperados para essa fase. Contudo, o centro de Filha vai além deste drama, e se estende sobretudo nas ressonâncias provocadas pela violência dentro do ambiente familiar – o que tem a ver não apenas com o impacto físico, mas também com o estresse e a constante sensação de terror que ela carrega.
Uma filha e o legado de uma vida de misérias

Manu e seus irmãos são testemunhas e partícipes da história de um casamento infeliz regido pela uma submissão da mãe e que conecta todos os filhos. Mesmo sem grandes sucessos para se vangloriar, o pai se tornou o centro de tudo, e desconta suas frustrações de seus sonhos não realizados na prole e na mulher. “De tempos em tempos, o pai também bate na mãe. Acontece sempre durante uma discussão, à noite, depois do expediente comercial, mas principalmente numa janela que se abre entre as sextas-feiras e os domingos. Nas noites de sexta, ele começa a beber pra aliviar as tensões dos negócios que vão quase sempre mal, em grande parte por nossa culpa”.
O romance se destaca dos tantos livros que visitam temas semelhantes por sua disposição em transitar entre o arenoso terreno dos sentimentos humanos, que não se reduzem a rótulos rápidos nem definitivos.
A seu modo, nos conta a narradora, todos os filhos dão um jeito de escapar da sanha raivosa do progenitor. Nem sempre conseguem, claro. Para Manu, talvez por ser a última, parece restar os maiores sofrimentos, e a pesada tarefa de organizar a história do pai em forma de narrativa, que é sim repleta de ódio e masculinidade tóxica, mas também esconde os tormentos de um homem frustrado e de um menino criado sem amor.
Dividido em duas partes – “Construção” e “A Morte do Pai” –, o romance se destaca dos tantos livros que visitam temas semelhantes por sua disposição em transitar entre o arenoso terreno dos sentimentos humanos, que não se reduzem a rótulos rápidos nem definitivos. A relação entre Manu e o pai está em constante fluidez entre ódio e amor, rancor e perdão. É possível amar um pai que nos fez tanto mal ao longo da vida, enquanto crescíamos?
As perguntas mais importantes são as que não suportam respostas fáceis. A decadência física e o adoecimento do pai fazem com que a protagonista, de forma suave, que beira o natural, vá se reaproximando daquele homem. “Não faz muito tempo que aquele velho foi meu pior inimigo, e um velho, afinal, pode ser só um inimigo que envelheceu”, escreve Manoela Sawitzki.
E um inimigo que não tem mais rivais pode, por incrível que pareça, deixar transparecer outras facetas escondidas sob os seus escombros, com as nuances de um pai orgulhoso. Filha de modo algum se encaixaria como uma narrativa sobre redenção, mas é uma obra poderosa que trata sobre a busca de uma paz possível em meio a um passado marcado por tristezas.
FILHA | Manoela Sawitzki
Editora: Companhia das Letras;
Tamanho: 128 págs.;
Lançamento: Julho, 2025.
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