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Spielberg volta a olhar para o céu em ‘Dia D’

Em 'Dia D', Steven Spielberg revisita sua antiga fascinação pelo desconhecido para construir uma ficção científica que fala menos sobre extraterrestres e mais sobre verdade, fé e o desejo humano de encontrar respostas em um mundo dominado pela desconfiança.

porPaulo Camargo
16 de junho de 2026
em Cinema
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Emily Blunt e Josh O'Connor estrelam a nova produção de Steven Spielberg. Imagem: Universal Studios / Divulgação.

Emily Blunt e Josh O'Connor estrelam a nova produção de Steven Spielberg. Imagem: Universal Studios / Divulgação.

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Há um momento em Dia D em que milhões de pessoas ao redor do planeta aguardam a mesma coisa: uma mensagem. Não importa exatamente quem a enviou. Importa a expectativa. A possibilidade de que, finalmente, alguém responda às perguntas que a humanidade vem formulando há séculos. Steven Spielberg constrói todo o filme em torno dessa espera. E talvez seja justamente aí que esteja sua maior qualidade.

Depois de décadas ajudando a moldar o imaginário contemporâneo sobre extraterrestres, o diretor retorna ao tema sem a ingenuidade luminosa de Contatos Imediatos do Terceiro Grau nem o espírito aventureiro de E.T.. O mundo de Dia D é outro. É um mundo que já não confia em governos, instituições, especialistas ou mesmo nas próprias imagens que consome diariamente. Antes de falar sobre alienígenas, Spielberg parece interessado em discutir a erosão da verdade.

A trama acompanha Daniel Kellner (Josh O’Connor), um hacker que entra em posse de documentos capazes de comprovar décadas de ocultação de contatos extraterrestres, e Margaret Fairchild (Emily Blunt), apresentadora de televisão cuja vida é transformada por experiências que desafiam qualquer explicação racional. A partir desse encontro, o filme se converte numa mistura de thriller conspiratório, ficção científica e drama humano.

O roteiro flerta constantemente com o risco do excesso. Há perseguições, vazamentos, operações secretas, revelações sucessivas e personagens que surgem para explicar camadas cada vez mais complexas da conspiração. Em mãos menos experientes, tudo isso poderia resultar numa narrativa caótica. Spielberg, porém, possui um talento raro para organizar o espetáculo sem perder o foco emocional.

É impossível não perceber como o cineasta revisita fantasmas de sua própria filmografia. Os céus continuam carregados de mistério. Os personagens ainda olham para cima em busca de respostas. A diferença é que agora a maravilha vem acompanhada de suspeita. O encantamento cede espaço à ansiedade.

Emily Blunt sustenta o centro emocional da narrativa. Sua Margaret é uma personagem que oscila entre a perplexidade e a coragem, funcionando como ponto de identificação para o espectador. Josh O’Connor entrega um protagonista mais cerebral, quase um homem comum lançado contra forças muito maiores do que ele consegue compreender.

Visualmente, Spielberg demonstra que continua sendo um dos grandes arquitetos do cinema de entretenimento. Algumas sequências impressionam não pela quantidade de efeitos, mas pela clareza narrativa. O diretor sabe exatamente onde posicionar a câmera e quando permitir que o silêncio produza mais impacto do que qualquer explosão digital.

Visualmente, Spielberg demonstra que continua sendo um dos grandes arquitetos do cinema de entretenimento. Algumas sequências impressionam não pela quantidade de efeitos, mas pela clareza narrativa.

Nem tudo funciona com a mesma força. O segundo ato se alonga além do necessário, e certos personagens secundários parecem existir apenas para mover a engrenagem da trama. Além disso, parte da discussão sobre desinformação e manipulação política permanece mais sugerida do que efetivamente desenvolvida.

Mas o aspecto mais interessante de Dia D surge justamente em seu desfecho. Em vez de oferecer uma revelação definitiva, Spielberg prefere interromper o processo no instante em que todos esperam uma resposta. É uma decisão que certamente dividirá o público. Alguns sairão da sessão frustrados. Outros perceberão que o filme nunca esteve interessado em explicar o universo. Seu tema sempre foi a necessidade humana de acreditar que existe algo além dele.

Aos 79 anos, Spielberg continua demonstrando uma qualidade que poucos cineastas preservam por tanto tempo: a capacidade de transformar grandes questões abstratas em experiências profundamente acessíveis. Dia D fala de extraterrestres, conspirações e segredos de Estado, mas, no fundo, trata da mesma inquietação que atravessa boa parte de sua obra. O desejo de encontrar uma conexão. Seja com o desconhecido. Seja com os outros. Seja conosco mesmos.

Num cinema cada vez mais obcecado por respostas, Spielberg ainda parece fascinado pelas perguntas. E talvez seja por isso que continuamos olhando para o céu junto com ele.

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Tags: CinemaDia DEmily BluntJosh O'ConnorSteven Spielberg

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