É aceitável encaixar A Suíça (editora HarperCollins Brasil, 2026; tradução de Isadora Sinay), da escritora estadunidense Jen Beagin, em um nicho informal que tem bombado no ramo literário: o de obras sobre mulheres peculiares e relativamente desequilibradas que lidam com suas vidas a partir de comportamentos autodestrutivos. Nessa caixinha, ele divide a prateleira com livros como Meu Ano de Descanso e Relaxamento, de Ottessa Moshfegh, e O Primeiro Homem Mau, da artista multimídia Miranda July.
Ainda que a obra de Beagin não brilhe tanto quanto estes outros, o fato é que A Suíça ganha o leitor por seu humor ácido, mordaz. A história é inusitada, e gira em torno de Greta, uma mulher de 45 anos e sem muitos objetivos na vida. Ela acabou de encerrar um noivado com um homem aparentemente saudável e se mudou para uma cidadezinha chamada Hudson, que se tornou uma localidade cheia de hipsters e de pessoas em geral que buscam uma vida mais leve, sem ter que lidar com tantos perrengues do capitalismo.
Greta meio que fugiu para lá e alugou um quarto numa casa histórica caindo aos pedaços, onde convive com a proprietária Sabine, também bem esquisita, e com bichos diversos, como mini burros geneticamente modificados, cachorros, um galo e uma colmeia com 60 mil abelhas que dividem o espaço com os humanos de forma pacífica. Para sobreviver, Greta descolou um trabalho como transcritora de áudios para um terapeuta sexual tilelê autodenominado Om, que planeja fazer um livro com as histórias dos clientes.
O jogo de gato e rato entre a Suíça e Greta é a mola propulsora usada por Jen Beagin para trabalhar estas múltiplas camadas tangíveis pela experiência humana.
Os problemas que inspiram a trama começam quando Greta desenvolve uma obsessão por uma das pessoas que fazem terapia com Om e cujas sessões ela precisa transcrever. A voz dura e o sotaque europeu fazem com Greta a apelide de “A Suíça”, de maneira bem estereotipada mesmo.
O fascínio provocado ali é porque a Suíça (cujo nome real é Flavia) parece o completo oposto de sua transcritora: ela é firme, pragmática, franca e direta como uma navalha. Depois de passar por um trauma em que foi brutalmente agredida por um homem e quase morreu, a analisanda não aceita qualquer tipo de vitimização, e se recusa a se enxergar nesta posição. Greta, por outro lado, convive com o luto não elaborado da culpa que sente pelo suicídio da mãe quando ela tinha apenas treze anos.

Para que a história transcorra, claro, elas vão precisar ter algum tipo de envolvimento. E é a partir daí que A Suíça conquista seu leitor, ao se tornar uma obra sobre sexo e desejo sublimado, mas também sobre solidão e sobre como os traumas podem (ou não) deixar marcas na vida de que os têm.
O jogo de gato e rato entre a Suíça e Greta é a mola propulsora usada por Jen Beagin para trabalhar estas múltiplas camadas tangíveis pela experiência humana. Enquanto uns saem fortalecidos por estas rupturas (mesmo que isso ocorra, talvez, apenas na superfície), outros tendem a recalcar a dor que segue voltando à tona das formas mais imprevistas possíveis.
Todo este caldo é fortalecido pela capacidade de Jen Beagin para engendrar bons personagens. Brilham na trama Greta, a Suíça, Sabine, mas também os pacientes de Om, os cachorros e até o agressor da Suíça, Keith. É quase como se nós, leitores, nos tornássemos todos voyeurs da intimidade dos moradores do Hudson, devorando com voracidade todos os detalhes de suas vidas.
Por outro lado, isso acaba também apontando para uma possível fragilidade do romance. Ao nos apresentar cenas e pessoas tão meticulosamente peculiares, A Suíça perde algum peso na sua verossimilhança e soa um tanto forçado. Ainda assim, proporciona um bom mergulho no caos interior alheio – e, consequentemente, no nosso.
A SUÍÇA | Jen Beagin
Editora: HarperCollins Brasil;
Tradução: Isadora Sinay;
Tamanho: 304 págs.;
Lançamento: Março, 2026.
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