Poucos nichos televisivos parecem tão explorados quanto o dos reality shows. Há programas de todos os tipos: os de convivência, os baseados em expertises profissionais, em competições artísticas, esportivas, e aqueles que exploram a simples interação entre seres humanos, com suas alegrias e dificuldades. E, por incrível que pareça, mesmo que tenhamos a impressão de que tudo já foi feito, há sempre a possibilidade de aparecer alguma boa surpresa.
Sua Mãe Te Conhece?, novo reality show da Netflix, apresentado pela atriz Claudia Raia, parece ser um desses casos. Há uma ideia relativamente simples ali, embora executada com certa engenhosidade. A premissa é executar duas competições simultâneas, uma dentro da outra. Na primeira, nove mães são convidadas para acompanhar, por meio de câmeras, seus filhos (todos na casa dos 25 a 30 anos) que estão convivendo em outro local. Como se estivessem em um cassino, elas irão apostar dinheiro nas decisões e nas declarações que eles darão frente a situações provocadas pela produção. Daí surge a pergunta: será que as mães realmente os conhecem?
O segundo jogo é realizado pelos filhos que não sabem de nada. Eles acreditam que estão participando de outro reality show chamado “República”, baseado em provas tradicionais. Não sabem, portanto, que suas ações estão sendo conferidas por suas mães, e que suas performances físicas têm bem pouca importância. O que conta ali é o que eles dizem e as expectativas que as progenitoras têm deles.
A falta de conhecimento dos filhos acaba os motivando para agir de maneira mais sincera, sem a ciência da vigilância maternal. Isso, claro, torna as coisas muito mais divertidas – e complicadas.
Dramas entre mães e filhos
Um dos lugares-comuns mais repetidos nos dias de hoje menciona um descrédito generalizado com a geração Z, dizendo que esses jovens são mimados e reclamões, que não sabem fazer quase nada e que não saem da casa dos pais nem por decreto. Sendo isso verdade ou não, Sua Mãe Te Conhece? traz um olhar interessante para observar esse possível “problema” a partir da participação das neuroses das mães.
Em um país repleto de relações precisando de reconstrução, programas como Sua Mãe Te Conhece? parecem ter uma matéria prima infinita.
De fato, toda a edição do programa foca muito mais nelas do que nos filhos, utilizando-as como mote para gerar humor. E há mães de todos os tipos e para todos os gostos. Há a superprotetora Inocência, que não quer que sua filha (de 30 anos!) saia de casa e literalmente diz que vive para ela, numa chantagem emocional de gelar os ossos.
Há ainda Dri, que de alguma forma despontou como protagonista (vilã) da edição, pois criou briga com todas as outras mães e chama o seu filho de 25 anos de bebê, claramente o sufocando. Há Ana Martinha, que se declara “mãe à moda antiga” e não abre espaço para a filha expresse seus sofrimentos pela morte do pai.
Uma crítica possível ao reality show é que ele acaba fazendo graça com temas relacionados à saúde mental – todas as interações acima, embora meio cômicas, obviamente expressam sofrimento. Mas a verdade é que dizer isso não faz total jus a Sua Mãe Te Conhece?. Afinal, o programa dá margem, em vários momentos, a episódios comoventes.

Um deles envolve a postura de Cenir, uma policial que ressente por, segundo ela, conhecer pouco a sua filha, já que passou a vida toda trabalhando para sustentar a família. Ela afirma, chorosa, que se preocupou muito em fornecer casa e comida e não focou no que era mais importante. Esta dureza consigo mesma (típica das mães, diga-se) claramente não se reflete na própria filha, mas o programa parece se mostrar como um ponto de encontro entre as duas.
Mas talvez o ponto mais tocante ocorra na história de Beatriz, uma jovem homossexual que sofre por crer ser motivo de vergonha para a sua família evangélica. Sua mãe, Mônica, em vários momentos diz que a ama, mas que acredita em Jesus que um dia ela mudará.
O caso gera revolta em outra mãe, Adriana, que tem um filho gay, Pedro, e não aceita a postura de Mônica com a própria filha. Mesmo diante de tantos embates, parece haver uma redenção possível para uma família dividida pela religião.
Embora interfira pouco, Claudia Raia está à vontade no papel de apresentadora, e apresenta-se como uma matrona capaz de acolher mães e filhos. O roteiro também é bem inspirado, com frases como “onde o filho chora e a mãe vê tudo”.
Em um país cheio de dramas familiares como o nosso e repleto de relações precisando de reconstrução, programas como Sua Mãe Te Conhece? parecem ter uma matéria prima infinita para continuar se renovando. Basta a Netflix querer.
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