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‘Vício Inerente’ é quebra-cabeças lisérgico

Nada em 'Vício Inerente' é explicado em detalhes, e muito é sugerido, em uma explosão de signos que Anderson deixa soltos, propositalmente.

porPaulo Camargo
18 de maio de 2015
em Cinema
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'Vício Inerente' é quebra-cabeças lisérgico

Imagem: Reprodução.

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O cineasta Paul Thomas Anderson não é um diretor qualquer e seus filmes não devem ser vistos apenas como experiências estéticas ligeiras, palatáveis, sob o risco de tornarem experiências intragáveis para o gosto médio. São obras conceituais, nas quais o cineasta norte-americano mergulha de cabeça, assumindo muito riscos, no intuito de elaborar narrativas nas quais cada plano, e diálogo, não está ali ao mero acaso. Mas, sim, a serviço de uma construção pensada com o intuito não de tornar a experiência do espectador mais fácil, agradável, mas de desafiá-lo, talvez o confundindo, brincando com seus sentidos e percepções, e até o insultando, de certa forma.

Vício Inerente, seu longa-metragem mais recente, em cartaz em uma única sessão em Curitiba, às 17 horas, no Cinépolis (Shopping Pátio Batel), é uma obra cheia de camadas, em que a trama pode ser lida de diversas formas, já que Anderson não pretende explicar muito, mas, convidar o público a mergulhar na atmosfera lisérgica que ele lhe oferece ao longo de quase duas horas e meia de projeção, em uma quase overdose cinematográfica.

Anderson não pretende explicar muito, mas, convidar o público a mergulhar na atmosfera lisérgica que ele lhe oferece ao longo de quase duas horas e meia de projeção, em uma quase overdose cinematográfica.

A trama se passa na Los Angeles dos anos 1970, época recriada com maestria, e não apenas pela direção de arte e figurinos, mas pelo tom propositalmente alterado que Anderson que adota para transpor para a tela grande o romance Vício Inerente, de Thomas Pynchon, expoente da literatura experimental do período.

O enredo acompanha o protagonista Doc Sportello (Joaquin Phoenix, de Ela), que parece uma versão psicodélica de um personagem saído de uma novela noir dos anos 50, movido a álcool,  LSD, maconha e outros aditivos que não apenas alteram sua percepção, mas dão o tom à toda a estética do longa.

Sportello busca, de forma errática, pelo paradeiro de uma ex-namorada (narradora da história, no inconsciente do personagem), que teria desaparecido ao lado de um magnata do mercado imobiliário. À medida em que investiga o sumiço do casal, ele, tal qual um detetive da era noir, vai desvendando uma teia de ligações perigosas envolvendo políticos radicais, policiais corruptos, grupos neonazistas e até mesmo seitas supostamente religiosas – são evidentes as citações ao bando de Charles Manson, que assassinou a atriz Sharon Tate, mulher do cineasta polonês Roman Polanski, diretor de O Bebê de Rosemary.

Coerente com toda filmografia de Paul Thomas Anderson, que inclui O Mestre (2012), Sangue Negro (2007) e Magnólia (1999), entre outros, Vicio Inerente não é um filme fácil. A exemplo de outros protagonistas na obra do diretor, Sportello é um sujeito à deriva, atormentado. Um anti-herói, enfim. Aqui, ele assume a divertida embalagem de um hippie chapadão, capaz de tiradas muito engraçadas, mas sempre a um passo de um abismo tragicômico, dando a Phoenix mais uma oportunidade de mostrar seu extraordinário talento. Seu contraponto é o policial vivido por Josh Brolin (de Onde os Fracos Não Têm Vez), que parece personificar o dever de vigiar e punir, mas também não revela ser flor que se cheire, escondendo seus segredos e pecados.

Nada em Vício Inerente é explicado em detalhes, e muito é sugerido, em uma explosão de signos que Anderson deixa soltos em um quebra-cabeças que admite múltiplas construções, mais confundindo do que explicando.

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Tags: CinemaCríticaCrítica de CinemafilmesJoaquin PhoenixO Bebê de RosemaryPaul Thomas AndersonThomas Pynchon

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