• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Teatro

Diálogos à beira do precipício

porBruno Zambelli
26 de outubro de 2018
em Teatro
A A
Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

Não é de hoje que as tais “situações políticas” viram temas de debates e de espetáculos, misturam-se à rotina de cidadãos e artistas e acabam representadas no palco. Tão pouco é novidade na existência do brasileiro, ou do filho de qualquer outra nação, ter de caminhar no meio-fio do abismo por contas das incertezas e inconstâncias da valsa dos poderes que empurra a humanidade em direção ao infinito do nada.

Arte e política são indissociáveis como o sopro do vento e a vida, e por mais que alguns insistiam em colocá-las em lados opostos, a inércia imposta pela rotina e os abusos que a realidade promove tratam logo de uni-las novamente. Goste-se ou não, toda manifestação artística é também uma manifestação política.

Tal afirmação só é possível se compreendermos logo de saída que não é preciso explicitar um tema para tocá-lo. Não é necessário transformar o palco em palanque para tratar de política, apesar da prática mostrar-se ainda comum e eficaz, prova disso são as diversas obras que sofreram, e ainda sofrem, censura, ou que provocaram, e ainda provocam, reações extremas por parte de sociedade, poderes e líderes sem tratar abertamente do troço.

Ao tocar a vida, a arte já se propõe a fazê-lo por inteiro, ficando impossível medir o alcance do dedo que, portanto, resvala em todas as chagas humanas. Seja através do riso ou do pranto, do engajamento ou da negação, da realidade ou do sonho. Ao retratar o homem e a sociedade em que vive, e sua organização dentro dessa sociedade/vida, a arte, dentre elas o teatro, não pode se abster diante de nenhum aspecto inerente a esse homem. Afinal, ele está logo ali, envolvido em todas as fases do processo, escondido em todos os cantos do globo. Esse homem, animal político, é também o próprio teatro: está no palco, na técnica, na contrarregragem e na plateia.

Além da impossibilidade de se escapar da questão política envolvida em qualquer espetáculo, independente da pretensão, existem momentos históricos em que é preciso, tanto aos artistas quanto aos cidadãos, se posicionar de maneira clara. Quando nos encontramos diante do breu da ignorância, não existe meio termo ou lugar seguro. Nessas ocasiões a arte tem um papel fundamental: o da resistência. Não é possível ao artistas se omitir quando o que está em jogo é a própria liberdade, pilar fundamental e condição inegociável a todo processo artístico.

Goste-se ou não, toda manifestação artística é também uma manifestação política.

Em terras tupiniquins, por exemplo, grupos como o Teatro de Arena driblaram a censura reinventado o teatro musical e o teatro de revista para tornar questões políticas “acessíveis ao povo”. Inspirados pelos musicais épicos e políticos de Bertolt Brecht, Augusto Boal e Guarnieri abrasileiraram a revolta do alemão, no melhor estilo antropofágico, e transformaram a arena cravada no centro de São Paulo num manifesto político feito de cimento e coragem. Na mesma época, Chico Buarque, também de maneira antropófaga, lançava a Opera do Malandro e a Gota D’água, tratando dos mesmos temas de maneira mais poética e menos panfletária.

De Plínio Marcos ao Teatro Oficina, de Bibi Ferreira à Companhia do Latão; são inúmeros os exemplos de artistas que se posicionaram, e continuam se posicionando, diante do abismo e do medo.Agora não é diferente. Não faltam exemplos, e por certo nunca faltarão, independente do cenário, de resistência artística e teatral através do tempo no Brasil e no mundo.

Na América excludente e delirante do bufão Donald Trump, que trancafia crianças e ameaça imigrantes, por exemplo, o teatro dita o volume do coro. Um dos indícios mais significativos dessa guinada à discussão política é a Broadway, que passa por um momento novo: há tempos não se via tanta peça com conteúdo político estampando os cartazes e os outdoors da avenida mais famosa dos U.S.A. Os especialistas acreditam que a razão seja justamente as declarações, ações e crimes praticados a céu aberto pelo governante desgovernado.

Em apenas uma quadra, é possível encontrar espetáculos com temáticas raciais, em defesa dos direitos dos homossexuais ou sobre a ganância que se espalha feito peste no submundo do poder. Mais adiante, no circuito off Broadway, um espetáculo sobre o poder das fake news, que tanto lá como cá tomou de assalto o pleito através da preguiça intelectual, faz dobrar a esquina a fila de espectadores. Ao lado, um ator anuncia que “o ser humano do século XXI renunciou a privacidade”, é o início de uma peça que discute a questão da venda de dados pessoais por redes sociais.

No velho continente a coisa não é diferente. A França vive uma enxurrada de peças que tratam do mesmo tema: justiça. A terra de Emmanuel Macron se vê, com razão, refém das injustiças defendidas por um governante comandado por grandes corporações. Lá, como cá, direitos são leiloados em nome do mercado e os trabalhadores continuam a mercê das vontades de homens comprometidos com o retrocesso e a opressão.

Por aqui o enredo é o mesmo, portanto, a necessidade de se posicionar também é a mesma.  No Brasil, o fascismo deixou de ser apenas uma ameaça e caminha pelas ruas a luz do dia com a cara limpa, as mãos sujas de sangue e representante no segundo turno das eleições presidenciais. Coronéis empoeirados e garotos mimados intimidam instituições com uma naturalidade que chegaria a corar o próprio Marques de Sade. Por aqui, nada vai bem.

O Ministério da Cultura segue ameaçado, grupelhos tentam a todo custo fechar exposições e criminalizar artistas e parece que foi baixado um decreto decrépito que nos proíbe de pensar. Grita-se histérica e irracionalmente em nome de uma moral completamente imoral e enviesada. Defende-se uma família que já não existe mais, mas que da sala de jantar insiste em defender seus interesses em detrimento da humanidade e do bom senso. Por aqui, resta o coro dos artistas, a defesa do justo através da arte e isso basta. A beleza sempre avança contra a barbárie em tempos de guerra.

Não existe luz capaz de alumiar o fundo do abismo. Seu bucho inexplorado, ventre oco, é o desconhecido em forma de perambeira. É o vento do fim do mundo penteado nossos cabelos. Seu horizonte infinito, imensa gaiola de eco e estrelas, nos lembra a todo momento de nossa própria pequenez. Estamos nos trucidando à beira do precipício e seguimos com o cortejo da falta de razão. Nesse momento, não podemos nos omitir enquanto artistas, cidadãos e até como seres humanos, afinal, diante do horror a omissão torna-se complacência.

Em nome da liberdade, da democracia e principalmente da cultura, é preciso que os artistas se unam em defesa da justiça e da empatia. Se assim for, tenho a certeza de que eles não nos calarão, seja na base da bala ou da proibição. Juntos continuaremos gritando, cantando, atuando, escrevendo, dançando e criando; pois o que nos une é o amor e a coragem e não a covardia e o ódio. Não nos curvaremos à censura, à surra ou ao fantasma do eletrochoque, temos fé no outro e sabemos que ao invés de distribuir fuzis é preciso dinamitar fronteiras, construir pontes de acesso.

Estamos hoje dialogando à beira de um precipício com os corpos expostos, contra o vento, mas podemos deter o avanço do medo. Basta a vontade de resistir, a certeza daquilo que defendemos e a crença na força para seguir adiante. Por aqui, apesar do vendaval, ainda é tempo de mudar o rumo do vento. Temos sangue correndo nas veias e furacão nascendo nos lábios. Ainda há tempo. Estamos juntos, hoje e sempre. Vamos barrar o retrocesso?

link para a página do facebook do portal de jornalismo cultural a escotilha

Tags: Augusto BoalBertolt BrechtcensuraditaduraeleiçõesTeatroTeatro de Arena

VEJA TAMBÉM

Kauê Persona vive Paulo Leminski. Imagem: Zuca Alvino / Divulgação.
Teatro

Kauê Persona encontra Leminski pela palavra em ‘Línguas de Dragões’

9 de setembro de 2026
Espetáculo celebra 25 anos da companhia curitibana. Imagem: Ethel Braga / Divulgação.
Teatro

‘História’ traz memória como campo de batalha

12 de junho de 2026

FIQUE POR DENTRO

Nova adaptação do romance de John Steinbeck foi conduzida por neta de Elia Kazan. Imagem: Netflix Studios / Divulgação.

‘A Leste do Éden’ renova Steinbeck em adaptação excepcional

19 de outubro de 2026
Imagem: Unsplash.

Editorial: veículos de jornalismo se unem pela democracia

14 de outubro de 2026
As participantes de 'Sua Mãe Te Conhece?'. Imagem: Nat Odenbreit / Netflix.

‘Sua Mãe Te Conhece?’ diverte ao explorar as neuroses da maternidade

7 de outubro de 2026
Jornalista é repórter na revista piauí. Imagem: Diego Bresani / Divulgação.

‘Filho’ faz da memória materna uma denúncia social

28 de setembro de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.