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Home Teatro

Quando o teatro chama

porBruno Zambelli
3 de setembro de 2015
em Teatro
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A rotina governa a nossa vida quando deveríamos ser governados por nossos desejos. Essa certeza sempre me trouxe uma inquietude tremenda. É possível conciliar, adequadamente, os prazeres e deveres dentro de um só corpo? Em uma única e imensa pulsão?

A balança que nos segura diante do abismo é uma espécie de playground da alma, onde estamos sempre presos entre a dedicação e a perfeição apolínea e a embriaguez sagrada, aquela que afirmamos método, da criação. Convenhamos, Dioniso bate forte em nosso peito desvairado! Ao escrever, independente do assunto, derramamos pelo teclado a nossa essência. Escrever é, como toda criação, um ato de fé e devoção.

No entanto, criar para um veículo cultural envolve algumas outras questões que, em alguns casos, nada tem a ver com o prazer ou a iluminação. Entre pesquisas e prazos, administração do tempo e a possibilidade do ócio, somos assombrados pelos fantasmas da obrigação que nos consome as entranhas. É inegável a luta intelectual a qual todo criador está submetido. Travamos uma queda de braço com o tempo na busca por uma perfeição inatingível. Permanecemos frustrados no mapa-múndi da história, enforcados no calabouço do entendimento. Sempre prontos a sacrificar o tanto quanto for possível por uma boa história. Enxergar o mundo e reconhecer, nessa desordem, toda a possibilidade que existe, esse é, genuinamente, o trabalho daquele que se entrega aos ofícios do jornalismo cultural. Por hora, sou um desses pobres diabos, engolido pela ânsia maravilhosa de florescer nos jardins cibernéticos da opinião.

Ao escrever sobre teatro é preciso lembrar que ele detém todos os mistérios do mundo. As idéias transbordam feito a espuma espessa de um chopp que descontrola a tarde de sábado. É impossível negar que poderia escrever por aqui eternamente sobre peças que estão em cartaz. A brutalidade analítica de uma resenha sempre ronda a cuca de quem tenta fazer do teatro a sua única possibilidade de vivência. Sobrevivo na eterna crença de que o palco representa o único espaço onde se é possível reconhecer uma vida que está impressa em branco e preto.

“Ao escrever sobre teatro é preciso lembrar que ele detém todos os mistérios do mundo.”

Por isso, vez ou outra, é preciso esquecer as obrigações e transformar o mundo que nos cerca. Redescobrir na cadência alucinada dessa vida plastificada toda a existência de um mundo que nos nega o ir e vir. Enquanto Merkel diz não e a União Europeia tenta justificar um mundo que deixa o ser humano à deriva, ainda acredito no poder transformador de uma frase que condensa a beleza de um mundo disforme. Contra os cadáveres frescos de crianças desoladas, eu invoco o chamamento puro de um teatro pronto a reinventar esse globo embaraçoso.

E é por isso, caros leitores, que eu vos digo que o teatro é a única saída para essa megalomania divina. O Teatro nos salva! O teatro nos salva diante do medo, já que o medo não passa de uma donzela vazia que tenta nos afogar as esperanças.

O teatro nos salva diante do mundo, e o mundo não passa de um passatempo esquizofrênico que nos lança direto pra morte. O teatro nos salva da morte, já que a morte é apenas o balançar daqueles cabelos vermelhos que nos justificam a existência. O teatro nos salva da existência, já que a existência engendra os maiores e mais absurdos fantasmas que habitam o nosso espírito.

O teatro nos salva de espíritos, já que sem o canto negro da criação estamos fadados a ocupar o tedioso nada. O teatro nos salva do nada, já que o nada é lá, onde deveríamos ser algo, e pretendemos o absurdo do existir. O teatro nos salva de uma existência ingrata, já que a ingratidão de estar vivo diz muito mais sobre quem desejávamos ser do que quem somos. O teatro nos salva de nós mesmo, já que somos os  mais odiosos demônios que habitam essa terra de pobres engenheiros da razão.

Mestre Peninha nos ensinou que toda brincadeira cresce e absorve a existência humana. Com a força amarrada no amanhecer, eu que sou desses homens que se entregam feito um gato suburbano às noites de lua cheia, dou o braço a torcer e clamo aos deuses por uma felicidade que, certamente, significa um mundo mais mundo. Acredito nos olhos negros daquela moça que, com os cabelos vermelhos e os olhos cheios de vida, me leva a tocar o barco. Sigo por ela, pelo futuro que carregamos nos punhos e pela força que o teatro me trás.

O teatro chama e, quando chama, só podemos nos ajoelhar diante de sua grandeza.

MERDA!!!!!

Tags: Crítica TeatralTeatro

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