Há quem acredite, instintivamente, que Tarsila do Amaral esteve presente na famigerada Semana de Arte Moderna de 1922, que abalou a vanguarda paulista daquele tempo. O engano não é à toa, afinal, “Abaporu” é um dos pilares da pintura modernista brasileira, símbolo de um período marcado pela transição de novas ideias, rupturas com o passado e celebração da cultura brasileira. No entanto, a célebre obra de Tarsila sequer existia à época do evento que iniciou o Modernismo em terras tupiniquins: enquanto o público vaiava e chocava-se com as obras da Semana de Arte Moderna, a artista tentava encontrar sua identidade estética em Paris.
A pintora voltou ao país não muito tempo depois, porém com a certeza de que sua busca não teria sucesso por completo na Europa – era no Brasil, diante da própria cultura, que encontraria seu caminho. Surgia, assim, a antropofagia e o presente mais célebre dos célebres, que Tarsila daria ao marido e escritor, Oswald de Andrade.
Abaporu, em tupi, significa homem que come gente. A partir do quadro, de 1928, surgia o Manifesto Antropofágico e a prática de devorar a cultura estrangeira e “vomitá-la” com características brasileiras, da mesma forma que Tarsila havia feito na obra. Nascia um novo movimento essencialmente brasileiro, surgido da digestão e compreensão das influências externas, mas aplicado à realidade e à cultura do Brasil.

Os modernistas não absorviam mais apenas tendências estrangeiras, mas as transformavam em algo inovador e próprio. O movimento antropofágico mudou o rumo da arte e do modernismo no Brasil, encabeçado por “Abaporu” e Tarsila, uma artista mulher na década de 1930.
O futuro da arte no país, com cada vez mais artistas brasileiros procurando refúgio e aceitação em outros continentes, não parece muito próspero.
Do alto do aniversário de 90 anos do feito, percebemos que certos causos realmente se repetem na história (seria Queermuseu uma espécie de Semana de Arte Moderna?), desde a indignação de parte do público ao cenário atual da arte contemporânea comparado ao daquela época. Porém, ainda que com certa relutância de setores mais conservadores, Tarsila entrou para a história por querer “ser a pintora de seu país”. Será que ainda existe esse tipo de espaço e possibilidade de crescimento para artistas no Brasil?
Lidamos atualmente com o crescente sentimento de descrença no poder de transformação da cultura por parte do público não especializado. O futuro da arte no país, com cada vez mais artistas brasileiros procurando refúgio e aceitação em outros continentes, não parece muito próspero.
Resta a esperança de próximas Tarsilas, que consigam, mesmo perante críticas, mudar o futuro da arte contemporânea no Brasil, com a mesma essência, insistência e vigor que o antropofagismo – que finalmente se inicie na nossa história o próximo ciclo de ideias, rupturas com o passado e, principalmente, celebração da cultura brasileira.
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