O longa Dois Papas, graças a Deus, não é um filme religioso, dogmático ou de pregação, embora possa, dependendo do ponto de vista, ser interpretado, sim, como uma peça de propaganda em favor da Igreja Católica, porque cumpre bastante bem o papel de humanizá-la, a trazendo para perto do espectador do século 21. Essa missão é cumprida, primeiramente, e muito bem, pelo afiado roteiro, indicado ao Oscar, do britânico Anthony McCarten (de A Teoria de Tudo), que busca mostrar, do lado de dentro, como a renúncia do super conservador papa Bento XVI, em 2013, se desenhou e resultou na eleição do mais progressista Francisco, natural da Argentina e primeiro pontífice latino-americano.
Menos preocupado com maquinações políticas de bastidores, embora elas se façam presentes no enredo, o roteirista está mais focado na construção de cenas marcadas por diálogos afiados e perspicazes, conduzidas com desenvoltura pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles, de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel. A finalidade: tocar a humanidade de Bento e Francisco, que não poderiam ser mais diferentes um do outro.
Para que uma obra cinematográfica como Dois Papas de fato funcionasse, no entanto, era primordial escalar os atores certos para viver os protagonistas. O galês Anthony Hopkins, que já havia trabalhado com Meirelles no apenas mediano 360, é Joseph Ratzinger, ou Bento 16, emprestando-lhe um bem-vindo misto de rabugice e agudez intelectual que torna o personagem bastante interessante, talvez mais carismático do que o próprio religioso que o inspirou. Jonathan Pryce, do clássico Brazil – O Filme (de Terry Gillian) e que já havia vivido outro argentino, o presidente Juan Perón, no musical Evita, ao lado de Madonna, é a escolha perfeita para encarnar o cardeal Jorge Bergoglio. Além da semelhança física, o também galês não apenas convence como latino-americano, mas imbui o cardeal portenho de toda complexidade que lhe é peculiar, e se revela ao longo do filme. Tanto Hopkins quanto Pryce também disputam, com todo o merecimento, o Oscar 2020, o primeiro na categoria de coadjuvante e o segundo, como ator principal.
O enredo do filme de Meirelles se inicia em 2005, quando a morte do papa João Paulo II conduz à ascensão de Bento XVI.
O enredo do filme de Meirelles se inicia em 2005, quando a morte do papa João Paulo II conduz à ascensão de Bento XVI. Já neste conclave, Bergoglio surge, para surpresa de muitos, como o segundo mais votado, justamente por representar uma ala menos conservadora do que a liderada pelo cardeal alemão. Anos mais tarde, contrariado com a posição da igreja em relação a escândalos envolvendo casos de pedofilia ao redor do mundo, o argentino toma a decisão de renunciar o posto de cardeal de Buenos Aires e voltar a ser pároco junto aos mais humildes. Ele viaja até Roma para comunicar sua decisão, mas o papa se nega a aceitar o pedido de afastamento.
O roteiro de McCarten defende a tese de que, a partir desse momento, Bento XVI e Bergoglio mantêm uma série de encontros, cuja finalidade não seria apenas a de dissuadir o cardeal de sua decisão: o papa estaria, na verdade, testando o jesuíta argentino para saber se ele teria, de fato, o perfil esperado para sucedê-lo.
Por ser muito rígido, pouco disposto a aceitar a negociar avanços no catolicismo, Ratzinger sentia-se desgastado e inábil na lida com os desafios decorrentes de seu posto vitalício. Se isso de fato ocorreu dessa forma ou não, talvez nunca saibamos, mas, como se trata de uma obra de ficção, Dois Papas funciona muito bem ao oferecer ao público esse confronto de ideias entre dois personagens tão fascinantes. A câmera do diretor Cesar Charlone assume ares documentais, ágeis, investigando as reações e expressões dos personagens, em close-ups mais intimistas que contrastam com a solenidade dos ambientes onde os encontros acontecem, como a Capela Sistina, no Vaticano, por exemplo.
Como Bergoglio é o protagonista, Meirelles também nos leva às periferias de Buenos Aires, onde o cardeal realizava seu trabalho social em comunidades de base. O brasileiro também incorpora à narrativa do filme flashbacks da juventude do religioso, quando resolveu tornar-se padre e dedica uma parte do filme, a menos bem resolvida dramaticamente da trama, a sua controversa atuação durante a ditadura militar na Argentina dos anos 1970.
O ator portenho Juan Minjuín se sai muito bem como o religioso nessa fase mais jovem, mas o filme não consegue problematizar suficientemente e mostrar com maior profundidade dramática esse período mais polêmico, e sombrio, da biografia do cardeal. Ele é até hoje acusado de não ter tomado uma posição mais firme contra o regime ditatorial, que prendeu e torturou tantos no pais, inclusive outros jesuítas, que o tinham como amigo. Por conta dessa hesitação, Bergoglio não se julga merecedor de se tornar papa.
Embora Dois Papas, uma produção do canal Netflix, não torne isso explícito, as cenas finais do filme, que mostram o papa Francisco falando apaixonadamente em favor de refugiados e outros grupos de oprimidos, ainda conforme o roteiro de McCarten, seria a forma encontrada pelo pontífice de expiar suas culpas do passado. O mesmo vale para suas posições progressistas de hoje, que contrastam com posturas mais conservadores que ele mantinha na Argentina quando cardeal. Nesse sentido, o longa-metragem parece, por vezes, assumir o papel de propaganda pró-Igreja Católica. Esse passo em falso, entretanto, não ofusca o grande mérito de mostrar com inteligência, humor e sensibilidade o confronto de ideias entre dois homens tão diversos entre si que, em vez do conflito, optam pelo diálogo e pela tolerância.
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