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O passado tão presente de ‘Infiltrado na Klan’

'Infiltrado na Klan' parece ficção improvável ambientada no ontem, mas é realidade contada para criticar absurdos de hoje.

porTiago Bubniak
29 de janeiro de 2019
em Cinema
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Infiltrado na Klan, de Spike Lee

Flip (Adam Driver) e Ron (John David Washington) trabalham em conjunto para ser a mesma pessoa. Imagem: Divulgação.

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Imagine que um policial negro conseguisse ingressar na Ku Klux Klan, ganhar a confiança dos racistas e ainda ser elevado ao cargo de líder do grupo criminoso. Parece história de filme. E é. Parece ficção, mas não é. Isso aconteceu mesmo no fim da década de 1970, na cidade de Colorado Springs, nos Estados Unidos. Infiltrado na Klan (2018), do diretor Spike Lee, é o filme que conta essa história. Ron Stallworth (interpretado por John David Washington) é o tal policial. Mas, afinal, de que modo ele, sendo negro, conseguiu aproximar-se da KKK? Simples: contando com o apoio de um colega branco, seu parceiro Flip Zimmerman (Adam Driver).

Ron comunicava-se com os criminosos apenas por telefone e cartas. Quando precisava estar pessoalmente em alguma reunião, quem ia em seu lugar era Flip. A parceria dos dois, em conjunto com mais alguns integrantes da polícia local, alcançou a proeza de evitar vários crimes motivados simplesmente pelo ódio no contexto de uma sociedade altamente marcada pelo segregacionismo.

O ativista Kwame Ture (Corey Hawkis), mostrado logo no início do filme, parece ser uma espécie de alter ego do próprio diretor Spike Lee, graças à dureza e profundidade de seu discurso contra o preconceito racial. Um dos trechos alfineta o fato de Tarzan matar os nativos na África e o espectador negro ser manipulado a ponto de torcer pela morte dos seus iguais. É esse discurso político que perpassa toda a narrativa. Ele faz lembrar que o cineasta é chamado de “ícone do cinema afro-estadunidense” justamente por sua defesa da causa.

Com suas críticas (mas sem deixar de lado o humor), Infiltrado na Klan mostra-se uma produção ao mesmo tempo combativa, atraente e politizada que valoriza a luta dos negros por direitos civis.

Com suas críticas (mas sem deixar de lado o humor), Infiltrado na Klan mostra-se uma produção ao mesmo tempo combativa, atraente e politizada que valoriza a luta dos negros por direitos civis. Apesar de os fatos narrados acontecerem nos Estados Unidos, o enfoque do filme transpassa fronteiras, ganhando dimensão universal e atualidade desconcertante. Uma atualidade que fica ainda mais evidente (e perturbadora) graças às decisões tomadas pelo diretor em determinado momento, quando o trabalho adquire caráter documental com o uso de imagens reais e mais recentes. É o passado resgatado para criticar o presente e “esfregar na cara” do espectador situações capazes de suscitar ideias mais ou menos como “olha do que você, ser humano, é capaz” ou “viu como os erros do passado constantemente rondam o presente?”

O roteiro, baseado no livro de mesmo nome do próprio Ron Stallworth, dá fluência sedutora ao relato, permitindo que ele deslize suave e harmonicamente. Isso relativiza o rótulo de “filme longo” que as duas horas e quinze minutos de duração podem, eventualmente, provocar em alguns quando conferem a ficha técnica. Infiltrado na Klan é um trabalho muito bem cuidado de montagem, caracterização dos personagens e elaboração dos diálogos. Com tantas qualidades, surge o desejo de querer rever. Mesmo que a sensação de soco no estômago tenda a vir de novo.

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Tags: Adam DriverCinemaCorey HawkisCríticaCrítica CinematográficaCrítica de CinemaInfiltrado na KlanJohn David WashingtonOscarOscar 2019ResenhaSpike Lee

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