Há algo de profundamente arriscado em construir um filme a partir de ausências. Não apenas a ausência física de alguém, mas a de explicações, de certezas e até mesmo de uma lógica narrativa estável. Exibido no último fim de semana na Mostra Competitiva Brasileira do 15º Olhar de Cinema, em Curitiba, Olhe para Mim, primeiro longa de ficção do diretor alagoano Rafhael Barbosa, aposta nesse terreno movediço. Em vez de conduzir o espectador por uma história organizada por causas e consequências, o filme prefere habitar zonas de mistério, fazendo da experiência sensorial e emocional seu principal motor dramático.
A narrativa acompanha Marcelo (Rômulo Braga), jovem marcado pelo desaparecimento da mãe durante uma celebração religiosa ocorrida anos antes. O trauma permanece como uma ferida silenciosa, moldando sua relação com o mundo. Quando conhece Ivan (Victor Sampaio) durante uma festa popular, inicia uma trajetória que combina busca afetiva, memória, espiritualidade e desejo, num percurso em que realidade, sonho e imaginação se entrelaçam de maneira quase indissociável.
O mérito de Barbosa está menos na construção de uma trama convencional do que na elaboração de uma atmosfera. Seu filme parece interessado em investigar estados de espírito, e não em solucionar enigmas. O desaparecimento da mãe funciona como ponto de partida, mas logo se transforma em algo mais amplo: uma reflexão sobre a persistência da ausência e sobre as formas pelas quais o imaginário tenta preencher aquilo que a realidade não consegue explicar.
O mérito de Barbosa está menos na construção de uma trama convencional do que na elaboração de uma atmosfera. Seu filme parece interessado em investigar estados de espírito, e não em solucionar enigmas.
É inevitável que surjam associações com o cinema de David Lynch. Não porque Olhe para Mim reproduza procedimentos ou imagens do diretor americano, mas porque compartilha de uma mesma confiança na força do inexplicável. Barbosa não teme a ambiguidade. Ao contrário, faz dela uma estratégia narrativa. Muitas das situações apresentadas parecem existir num espaço intermediário entre sonho, lembrança e experiência concreta, recusando interpretações únicas.
Essa dimensão encontra eco na representação do sertão alagoano. Distante das abordagens naturalistas que frequentemente marcam o cinema ambientado na região, o diretor transforma o Baixo São Francisco em território simbólico. As paisagens, os animais, as festas populares e os elementos da religiosidade local não aparecem como simples componentes de cenário, mas como extensões da subjetividade dos personagens. O espaço físico torna-se também espaço mental.
Outro aspecto particularmente interessante está na relação entre Marcelo e Ivan. O filme evita transformar o vínculo dos dois em objeto de definição ou classificação. Entre eles circulam afeto, desejo, cumplicidade e acolhimento, mas Barbosa resiste à tentação de reduzir essa experiência a uma categoria específica. Essa abertura confere delicadeza à narrativa e impede que os personagens sejam aprisionados por identidades rígidas.
As interpretações contribuem decisivamente para esse efeito. Rômulo Braga constrói Marcelo a partir de gestos mínimos, de silêncios e de uma melancolia permanente que parece impregnar cada movimento do personagem. Victor Sampaio, por sua vez, faz de Ivan uma figura simultaneamente concreta e espectral, alguém que surge como possibilidade de encontro, mas também como mistério. A química entre os dois sustenta emocionalmente uma narrativa que frequentemente privilegia a sugestão em detrimento da explicação.
Essa opção estética certamente não será acolhida por todos os espectadores. Há momentos em que o filme parece deliberadamente opaco, correndo o risco de afastar parte do público. Ainda assim, é difícil não reconhecer a coerência de uma obra que acredita tão profundamente em seu próprio universo. Barbosa demonstra rara segurança para um primeiro longa de ficção, recusando concessões e apostando numa linguagem que privilegia a experiência sensível.
Ao final, o que permanece não são exatamente os acontecimentos, mas as imagens e sensações que eles produzem. Permanecem os corpos atravessados pela luz das festas populares, os silêncios que ecoam entre as paisagens do sertão e a impressão de que algumas perdas jamais encontram reparação. Como certas lembranças que resistem ao tempo sem jamais se esclarecer completamente, Olhe para Mim continua reverberando muito depois de a sessão terminar.
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