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‘Deserto Particular’ fala de amor e tolerância em um Brasil diverso

Representante brasileiro na disputa pelo Oscar 2022, 'Deserto Particular', de Aly Muritiba, estabelece uma discussão provocativa e sensível sobre masculinidade, gênero e sexualidade.

porPaulo Camargo
26 de novembro de 2021
em Cinema
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'Deserto Particular' fala de amor e tolerância em um Brasil diverso

Antonio Saboia e Pedro Fasanaro: entre a superfície e o submerso. Imagem: Reprodução.

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A vida do policial militar Daniel, protagonista de Deserto Particular, longa-metragem de Aly Muritiba que estreia neste fim de semana em circuito nacional, é um beco sem saída. Na cena de abertura, o vemos correndo à noite por uma canaleta do ônibus Expresso, ícone da urbanidade curitibana. No meio da corrida, ele para e olha ao redor. Vê as indefectíveis estações-tubo, outro símbolo da cidade, e se percebe absolutamente só. Mais do que uma sensação momentânea, é uma constatação existencial. Ele se tornou um homem sem saída.

Vivido com total entrega por Antonio Saboia (de Bacurau), o personagem era, supostamente, um PM exemplar, seguindo os passos do pai, sargento aposentado, doente de Alzheimer, de quem ele agora cuida com total dedicação. A carreira de Daniel derrapa quando, em um incidente nunca totalmente explicado pelo filme, ele agride gravemente um colega de farda mais jovem. Como punição, é suspenso e querem obrigá-lo a um tratamento psiquiátrico, enquanto aguarda julgamento.

Muritiba, que além de cineasta, é graduado em História e já foi agente penitenciário, vai buscar na realidade inspiração para o roteiro de Deserto Particular, escrito a quatro mãos com Henrique dos Santos. Daniel parece ter sido criado à imagem e semelhança de muitos policiais militares que têm povoado o noticiário nos últimos anos, acusados de excessos violentos, motivados por precárias condições de trabalho e pela decorrente deterioração psicoemocional.

No limbo, Daniel divide seu tempo dilatado entre os cuidados com o pai, a quem reverencia como modelo de conduta, e um romance virtual vivido à distância com uma mulher chamada Sara, que reside na divisa da Bahia e Pernambuco, em Sobradinho, cidade nova que nasceu juntamente com a construção da represa do mesmo nome, pela Hidrelétrica de São Francisco, em 1973, e emancipada em 1989. A antiga localidade de mesmo nome foi completamente inundada e se encontra no fundo das águas. Essa imagem, de duas instâncias, uma visível, na superfície, e outra submersa, transforma-se em metáfora para falar tanto do protagonista quanto da mulher que por quem ele está apaixonado sem nunca tê-la visto, a não ser em fotos e vídeos.

Intimista sem ser hermético, Deserto Particular, escolhido para ser o representante do Brasil na disputa por uma vaga entre os indicados ao Oscar de melhor filme internacional, é também enganador.

Com um braço engessado, Daniel é um homem fraturado. Como seu salário foi suspenso por conta da repercussão negativa da agressão que cometeu, ele busca se sustentar fazendo bicos como segurança em casas noturnas, com a ajuda de um amigo de corporação, que mantém essa atividade paralela, algo também recorrente na vida real dos PMs. Mas quando Sara deixa de responder suas mensagens, ele perde a única válvula de escape e cai em desespero. Decide entrar em sua caminhonete, pegar a estrada e ir até Sobradinho/Juazeiro, em busca de uma resposta para o desaparecimento daquela que ele julga ser a mulher de sua vida.

Esse deslocamento entre Paraná e Bahia não é apenas físico. Como em todo road movie (filme de estrada) que se preza, a jornada não é meramente geográfica. É existencial. Ao colocar-se em movimento, Daniel faz uma espécie de fuga, mas também vai em busca de algo que nem mesmo ele sabe ao certo o que é. Pode ser de Sara, mas é, principalmente, de si mesmo.

Intimista sem ser hermético, Deserto Particular, escolhido para ser o representante do Brasil na disputa por uma vaga entre os indicados ao Oscar de melhor filme internacional, é também enganador. Primeiro, nos faz acreditar que é sobre o mistério em torno da identidade de Sara, mas vai muito além disso. O ótimo roteiro, potencializado pela direção delicada, sutil, de Muritiba, nos revela até cedo na narrativa quem a personagem é. E daí faz algo que, para mim, é o grande trunfo do longa: desloca o foco para a vida dela, para sua realidade, que, como a de Daniel, se encontra numa encruzilhada, que se torna tão ou mais limítrofe com a chegada do PM a Sobradinho e suas tentativas para encontrá-la. Não cabe aqui entrar em maiores detalhes da trama, para não comprometer a experiência do espectador.

Vale, no entanto, dizer que Muritiba estabelece uma discussão ao mesmo tempo provocativa e sensível sobre masculinidades possíveis, evidenciando o quanto estamos presos a definições estanques e binárias de gênero e, também, como consequência, de sexualidade. É também uma grande história de amor e autodescoberta, que atravessa o país para sair do plano virtual e ganhar concretude, seja ela qual for, no que chamamos de realidade.

É lindo como a fotografia do filme, assinada pelo colombiano Luis Armando Artega (de As Herdeiras), traduz cromaticamente as transformações pelas quais o estado de alma de Daniel passa ao longo de sua jornada externa e interna, de Curitiba, em tons mais frios e sombrios, até Sobradinho, onde as cores se tornam saturadas, refletindo a intensidade da trama que se desenha na tela. Muritiba, que é baiano mas vive em Curitiba há muito anos, sabe do que está falando.

Deserto Particular é uma coprodução Brasil e Portugal e tem um pé fincado no cinema paranaense. É também produzido pela Grafo Audiovisual, empresa da qual Muritiba é um dos sócios, com sede em Curitiba.

Tags: Aly MuritibaAntonio SaboiaCinemaCinema BrasileiroCinema ParanaenseCrítica de CinemaDeserto ParticularFestival de VenezaFilm ReviewgêneroGrafo AudiovisualmasculinidadeMovie ReviewOscar 2022Pedro FasanaroResenhaSobradinho

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