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‘Desobediência’ usa clima denso para falar de religião que sufoca

Ambientação propositalmente engessada para contar bem a história é responsável pela competência artística digna de aplausos de ‘Desobediência’.

porTiago Bubniak
17 de julho de 2018
em Cinema
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‘Desobediência’ usa clima denso para falar de religião que sufoca

Imagem: Reprodução.

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Dos segundos iniciais aos momentos finais, o que atravessa o filme Desobediência  (2017) é o modo competente com que o diretor chileno Sebastián Lelio arquiteta um universo denso, pesado e sufocante a serviço da história a ser contada. A base dessa “arquitetura” é formada por um conjunto de fatores como personagens vividos por intérpretes que trabalham com movimentos engessados e vozes reprimidas e contidas, enquadramentos que priorizam planos médios, ambientes fechados (com direito a cena em que uma das personagens deixa claro que as janelas do quarto não abrem) e uma paleta de cores que prioriza o preto, o branco, o cinza, o ocre e suas nuances.

Todo esse conjunto de elementos é utilizado para compor um quadro de repressão onipresente da religião. Mais especificamente, do judaísmo ortodoxo. A história mostra Ronit (Rachel Weisz) chegando a Londres para participar da cerimônia de despedida de seu pai, Rav (Anton Lesser), rabino que acabou de falecer. Lá ela encontra seus amigos de infância que, agora, estão casados: Esti (Rachel McAdams) e Dovid (Alessandro Nivola). Dovid está sendo preparado pela comunidade judaica para substituir Rav, mas esse plano (e toda a sua rotina rigidamente formatada) sofre rachaduras com o retorno de Ronit. Ela se mudou para o exterior em razão do envolvimento homoafetivo com Esti na infância.

A reaproximação de Roni e Esti causa alvoroço na comunidade altamente conservadora. No entanto, muito mais do que o relacionamento homossexual entre duas mulheres, o que se destaca em Desobediência é mesmo a imposição sufocante de preceitos religiosos em praticamente tudo o que permeia a existência humana.

Desobediência não é uma produção digerível para muitos, mas representa um bom exemplo de direção cuidadosa nos detalhes, do figurino ao roteiro.

Um momento emblemático de ruptura acontece na cena em que Ronit e Esti entram na casa do rabino falecido. A ambientação criada pela direção de arte transpira conservadorismo, claustrofobia e, inclusive, dá impressão de sujeira. Um rádio é ligado: já está sintonizado em uma emissora religiosa. A sintonia é alterada e um pop inglês “rasga” o ar, simbolizando a quebra com o ortodoxo, o pétreo, oxigenando o ambiente e trazendo sinal de mudanças de comportamento das personagens, pontuando de modo oficial, pode-se dizer, a aproximação das duas.

Desobediência não é uma produção digerível para muitos, mas representa um bom exemplo de direção cuidadosa nos detalhes, do figurino ao roteiro, da interpretação dos atores à construção dos personagens, da escolha dos enquadramentos à inserção das músicas. Além do mais, tem um discurso sobre liberdade que causa impacto pela sutileza com que se dirige de modo incisivo, direto e representativo às pessoas certas, na hora certa, ao mesmo tempo em que dá a impressão de estar sendo direcionado a todos os presentes com igual intensidade.

A trama envolvendo Ronit, Esti e Dovid confirma o talento de um diretor que, em 2018, ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por Uma Mulher Fantástica. O principal motivo? A mesma ambientação que é propositalmente engessada para contar bem a história é responsável pela competência artística digna de aplausos.

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Tags: Alessandro NivolaAnton LesserCinemaCríticaCrítica CinematográficaDesobediênciaRachel McAdamsRachel WeiszResenhaSebastián LelioUma Mulher Fantástica

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