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Crítica: ‘Primavera de Fernanda’: o T da comunidade LGBT precisa de um final feliz – Olhar de Cinema

'Primavera de Fernanda', de Débora Zanatta e Estevan de la Fuente, retrata a vida de uma mulher trans que é dificultada pelos preconceitos da sociedade.

porValsui Júnior
24 de junho de 2018
em Cinema
A A
'Primavera de Fernanda': o T da comunidade LGBT precisa de um final feliz

Imagem: Reprodução.

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Há muito tempo se fala sobre como produções audiovisuais de cunho LGBT geralmente não propiciam finais felizes para a comunidade. De fato, é certo que isso é bastante relevante, especialmente em países como o Brasil que, recentemente, teve o maior índice de assassinatos de transexuais em 10 anos. Neste ano, inclusive, a própria rede de streaming Netflix disponibilizou o documentário A morte e vida de Marsha P. Johnson (2017), que retrata a vida da ativista trans em meados dos anos 80 nos Estados Unidos e sua derradeira morte enquanto defensora da comunidade.

Mais recentemente, a dupla de cineastas Débora Zanatta e Estevan de la Fuente estreou o curta-metragem Primavera de Fernanda (2018), produzido pela Beija-Flor Filmes e exibido na mostra Mirada Paranaense da 7ª edição do Olhar de Cinema, em Curitiba.

Não se engane: embora o filme de ficção tenha apenas 19 minutos, ele exibe uma potência imensurável. A história de Fernanda, interpretada pela atriz transexual e diretora de escola Laysa Machado, pode parecer um tanto comum ou banal aos olhos de quem já é mais ligado ao tema. Porém, quando exibida em uma tela de cinema, se torna essencial para que novos olhares (e novos finais, por que não?) possam ser desenhados em torno do T da comunidade LGBT.

Primavera de Fernanda retrata a invisibilidade de transexuais em uma ficção que mais se parece com a realidade.

Na história, Fernanda trabalha como prostituta para manter a irmã e a sobrinha. Como é comum da própria atividade, a personagem acaba sendo agredida e recebendo ameaças de clientes que não a respeitam ou mesmo ignoram a sua existência enquanto pessoa, tratando-a apenas como objeto.

A irmã, ao perceber a situação de Fernanda, a aconselha a ir atrás de um emprego em que pudesse ser tratada com mais dignidade e respeito. Mesmo um pouco contrariada, ela aceita a proposta, porém vários empecilhos a dificultam de conseguir o cargo.

O maior mérito do curta-metragem é exibir uma mensagem que pouco se vê em filmes como este: a de que, sim, na nossa sociedade, é possível que uma personagem transexual tenha um final feliz. A questão da identidade de gênero é abordada com bastante naturalidade e realismo, é possível enxergar através da personagem de Laysa Machado muito mais do que uma simples representação artística, mas o retrato de toda uma camada social invisibilizada pela sociedade.

Além disso, é interessante notar que, na história da personagem, existe uma importância muito grande pelos laços de apoio em torno da família. Fernanda, que mesmo com um presente atribulado por conta da sua atividade, acaba descobrindo em sua nova jornada que pode utilizar das qualidades que aprendeu com sua mãe enquanto confeiteira e do que aprendeu enquanto esteve no exterior

O afeto mostrado em Primavera de Fernanda é essencial e primordial para a comunidade, que tanto sofre com a opressão da sociedade, embasada em preconceitos e ideias retrógradas.

Embora seja um curta que deixa com um gosto de “quero mais”, Primavera de Fernanda consegue trazer à pauta a questão da invisibilidade de transexuais em cidades grandes e suas dificuldades em ter uma vida digna, por meio de uma ficção que muito se parece com realidade.

A própria atriz, Laysa Machado, é um exemplo disso. Vida longa e digna à comunidade trans e que venham mais finais felizes, não apenas em filmes, mas nos longa-metragens da vida real.

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