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Home Crônicas Alejandro Mercado

Quase 60 centímetros de sorrisos

porAlejandro Mercado
11 de agosto de 2017
em Alejandro Mercado
A A
"Quase 60 centímetros de sorrisos", crônica de Alejandro Mercado.

Imagem: Reprodução.

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Do alto de seus quase 60 centímetros, Cícero esboça seus primeiros sorrisos. Começaram despretensiosos, quase sempre seguidos de um choro. Sua insistência em procurar completar um deles chega a ser cativante. Não poucas vezes, pego-me pensando nas incontáveis desculpas que inventei para não mostrar os dentes em um sorriso aberto.

Diferente de mim, que já permiti a sisudez das ironias da vida adulta, ele faz esforços hercúleos para que o sorriso saia, e não liga nem um pouco se houver um excesso de saliva aqui ou um bigode de leite acolá. Cícero ainda não foi picado pelo escárnio da vida adulta, e isso é estimulante.

Não é raro que nos vejamos fazendo caretas ou danças que, em qualquer outra ocasião, nos fariam corar de vergonha. De se pensar: em que momento rompemos com a simplicidade da vida? Talvez seja pouco a quem é vítima do sarcasmo cotidiano, mas, para mim, se trata de um dos rituais mais primordiais do dia.

Não há crise política ou financeira que demoverá este homem do cargo vitalício de seu pai, que, como pagamento, aceita aqueles sorrisos desprendidos dos seus quase 60 centímetros.

É impossível dissociar a sequência da vida em um ritmo que não seja o seu. Passamos a aceitar que sua rotina é a nossa e, com isso, abraçamos um novo cenário, diferente das bulas que oferecem por aí como comuns à relação pai/filho. Nada segue um script, não existe roteiro definido, ainda que os sorrisos apareçam todos os dias – e que sejam seguidos de inúmeras fotos, aquelas que eu não tenho do meu próprio passado.

Invariavelmente, pego-me a pensar no filho que fui, porque a roda da vida impõe a nós, todos, que sejamos sempre pais e filhos, como que proibidos de não enxergar e sentir o que se passa na mente, na pele e na alma do outro. E vamos lá e de volta outra vez.

O tempo passa rápido, tão rápido que causa um aperto no peito, uma quase diminuição do coração. A gente percebe que cada dia contigo é, também, um dia a menos contigo, porque a vida é finita, ainda que lutemos contra todos os prognósticos para que ela perdure. E nos pegamos pensando o quanto isso dói.

Às vésperas de nosso primeiro dia dos pais, talvez seja doloroso pensar nos clichês tristes da vida, mas eles, de alguma maneira torta, tornam esse momento mais especial. Não há crise política ou financeira que demoverá este homem do cargo vitalício de seu pai, que, como pagamento, aceita aqueles sorrisos desprendidos dos seus quase 60 centímetros.

Tags: Crônicadia dos paispaternidadesorrisos

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