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Home Crônicas Henrique Fendrich

Animaizinhos do meu tempo

porHenrique Fendrich
4 de novembro de 2015
em Henrique Fendrich
A A
"Animaizinhos do meu tempo", crônica de Henrique Fendrich

Imagem: Reprodução.

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A dona aranha subiu pela parede. Fossem outros os tempos e, não a chuva forte, mas uma chinelada bem dada a teria derrubado. Acontece que eu já me convenci que estamos no mesmo lado, pelo menos no que se refere ao extermínio das formigas que atacam a minha cozinha. É claro que também ajuda o fato de ser esta uma aranha pequenina, inofensiva, quase domesticada, e não como aquelas aranhas marrons enormes que aterrorizavam a minha infância. Aquelas lá não adiantava nem matar, porque sem dúvida deixavam algum líquido venenoso pelo chão, e ai de quem encostasse nele. Olhei para a dona aranha, que não parava de subir, e comecei a pensar em todos os animaizinhos do meu tempo, os pequenos bichos que sumiram da minha vida, à exceção de alguns dos mais detestáveis no reino animal, a saber, as baratas e os pernilongos.

Porque no meu tempo havia muito mais desses bichos. É verdade que eu morava no interior, praticamente na selva. As formigas eram muito maiores e, pior, elas mordiam e deixavam bolhas horríveis na pele, que só paravam de coçar depois que tacássemos vinagre em cima. Havia toda uma gama de insetos voadores, abelhas, vespas, butucas, o diabo. Borboletas, havia borboletas! Tudo isso porque, ao redor de casa, havia muito verde, muito mato e muitas árvores. Nas árvores, inclusive, se escondia um bicho terrível, a tal da taturana, que em outros lugares se conhece como mandruvá, mas ele mesmo não liga para como chamam, vai logo queimando a pele do sujeito, isso quando não coagula o seu sangue e não o leva à morte por hemorragia. Ah, eu podia morrer no quintal de casa. Hoje não consigo encontrar nem uma honesta mosca.

Também havia o curioso besouro, esse bicho que volta e meia cai de pernas para o ar e não há jeito de se desvirar – fica lá, batendo as perninhas desesperadamente, e fará isso até a morte, se uma boa alma não se dispuser a ajudá-lo (seja dito em meu favor, no dia do Juízo Final, que eu desvirei muitos besouros na minha vida). E as joaninhas, as simpáticas joaninhas. Ah, como era doce levantar joaninha no dedo e mostrar para a menina amada! Havia ainda as cigarras, bichos que eu nunca cheguei a ver, apenas ouvia o seu grito estridente nas árvores, como se estivessem rasgando a barriga. E sem falar em toda aquela sinfonia de grilos ao anoitecer, alguns chegavam até a entrar em casa e era sempre uma luta descobrir de onde vinha o som.

Comecei a pensar em todos os animaizinhos do meu tempo, os pequenos bichos que sumiram da minha vida, à exceção de alguns dos mais detestáveis no reino animal, a saber, as baratas e os pernilongos.

Com a noite também apareciam os sapos – Deus, ainda havia sapos! Sapos, rãs e pererecas. E normalmente um desses sapos ficava parado justamente diante da porta de casa, de modo que não era possível entrar sem enfrentá-lo. Ficávamos ali parados, eu olhando para o sapo, o sapo olhando para mim, em tom de desafio. Eu conhecia muitas histórias de gente que havia ficado cega depois que um sapo jogou o seu temido leite na cara dela. Bem, talvez o pessoal exagerasse um pouquinho. Tentava contorná-lo, até que ele se assustava e pulava para longe. Havia ainda o risco de cobras, mas acho que cobras não podem ser consideradas animaizinhos.

Enfim, coisas que me ocorreram enquanto a dona aranha subia pela parede – ela, que é teimosa e desobediente, sobe, sobe, sobe, e nunca está contente.

Tags: AranhasCrônicaformigasinsetos

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