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Home Crônicas Yuri Al'Hanati

O quadro mal-acabado que pintamos

porYuri Al'Hanati
1 de outubro de 2018
em Yuri Al'Hanati
A A
"O quadro mal-acabado que pintamos", crônica de Yuri Al'Hanati.

Imagem: Reprodução.

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Em exatamente sete dias começa o segundo turno das eleições. Digo segundo turno porque tenho a confiança de que a diversificação partidária deste ano não permitirá vitória fácil a quem quer que seja, e escrevo este texto desde já, porque sei que nada mais pode alterar o panorama das projeções e expectativas até lá. A não ser, talvez, um atentado ou coisa do tipo.

Notório é constatar que nós, os seres que escrevem, leem e debatem, estamos todos do mesmo lado, que é o lado oposto ao candidato que convencionou-se não nominar, seja por questões algorítmicas, seja por inspirações religiosas – o que, aliás, não é de todo inadequado. O candidato forma-pensamento que se plasmou no mundo sensível de acordo com os ensejos negativos do antipetismo é, hoje, a legitimação de um mal que saiu do campo das microagressões para ganhar contornos de projeto político. Uma campanha inteira baseada na chacota, na afronta e em promessas de aproximar o estado de direito a um direito de natureza só poderia ser abraçada por quem sustentou por algum momento a ilusão de controle sobre a própria vida em sociedade apenas para, no instante seguinte, perdê-la num choque de realidade.

A paranoia merovíngia proporcionada pela condominização dunkeriana joga sobre a malha social uma guerra fria fratricida que é alimentada irresponsavelmente pela polarização política. Polarização essa, é bom frisar, que se faz apenas midiaticamente, já que no campo de atuação burocrática dos agentes do Estado, o que se vê é o oposto: uma planificação da geografia partidária, em que impera o esforço malabarista de correr das extremidades do discurso para o centro da governabilidade.

Notório é constatar que nós, os seres que escrevem, leem e debatem, estamos todos do mesmo lado, que é o lado oposto ao candidato que convencionou-se não nominar, seja por questões algorítmicas, seja por inspirações religiosas – o que, aliás, não é de todo inadequado.

Diante disso, temos o cenário peculiar em que ganha destaque aquele que não quer razoabilidade. Mais bile e menos cérebro. O triunfo do anti-intelectualismo que tripudia sobre o túmulo de nossas ideias insuficientes é o atestado de fracasso da filosofia marxista como ferramenta do povo. Pensar deu errado, ou assim querem os apoiadores do antípoda. A lógica, a razão, os fatos, nada disso mais tem serventia na campanha política de 2018. Afinal de contas, está tudo aí: as falhas, a inexperiência, o despreparo, a corrupção comprovada, o retrocesso anunciado, o ódio propagado.

A esperança do primeiro turno dá lugar agora ao consolo do segundo turno. Vota-se para barrar o tal projeto de governo. Resta também o consolo do não-silêncio, do posicionamento sólido, a mesma expiação e transferência de culpa que criou as bases do que estamos combatendo neste exato momento. Jamais será o bastante para aplacar o coração inquieto que insiste em bater nesses tempos crepusculares. O que seria o bastante? Talvez gastemos nossas últimas energias na busca por essa resposta.

Tags: antípodaCrônicaeleiçõesfatoslógicapolarizaçãopolíticarazoabilidade

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