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Home Literatura

‘A Pianista’: um romance freudiano

porJonatan Silva
16 de setembro de 2016
em Literatura
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A Pianista Elfriede Jelinek

Elfriede Jelinek. Foto: Divulgação.

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Se a relação kafkiana de pai e filho fosse transportada para o universo feminino haveria somente uma opção: o romance A Pianista (Tordesilhas, 320 páginas), da escritora austríaca Elfriede Jelinek, Nobel de Literatura em 2004. Publicado originalmente na década de 1980, o livro é um polêmico debate sobre os laços familiares e o poder de dominação.

Erika Kohut é uma fracassada professora de piano, que se desdobra entre as aulas cruéis para alunos não muito talentosos e a sua vida sexual reprimida por uma mãe (que não recebe nome no romance). As duas mulheres, que dormem todas as noites na mesma cama, vivem à sombra do pai ausente, morto em um sanatório vienense e tentam a manter a sanidade apesar de todos os conflitos.

Erika, imortalizada por Isabelle Rupert no longa A Professora de Piano, de Michael Haneke, chega aos 40 anos sem perspectiva. Quando o jovem estudante de engenharia Walter Klemmer surge em suas aulas, ela desenvolve uma espécie de obsessão às avessas: tenta fugir do rapaz até não conseguir mais e, finalmente, entregar-se a ele. Porém, a relação dos dois só poderia vingar, ter qualquer coisa próxima ao êxito, se Klemmer seguisse as regras impostas pela professora.

Em uma narrativa crua, com trechos como “tudo na vida tem um fim, menos a salsicha que tem dois”, Jelinek expõe as neuroses de uma mulher à beira de um ataque de nervos. A professora propõe ao aluno um jogo de dominatrix, mas em que ela será subjugada. O romance causou controvérsia à época do lançamento e ainda é motivo de espanto para leitores mais pudicos. Como em Desejo, também publicado pela Tordesilhas, a escritora é feroz e não parece ter qualquer pudor ou vontade de poupar seus personagens do martírio que é estar vivo.

O seu gosto pelo experimentalismo, a necessidade de colocar o leitor e o personagem em enrascadas fazem com que seja incompreendida em seu próprio país.

Freud

A chave para compreender a conflituosa relação de Erika com o mundo é a sublimação de Freud. De acordo com o pai da psicanálise, a sublimação é um mecanismo ou modo de defesa do ser humano contra as pulsões. Para Freud, as pulsões acabam por ter três destinos: o recalque, a inversão da pulsão em seu contrário/volta contra a própria pessoa e sublimação propriamente dita. A inversão e a volta da pulsão estão relacionadas ao sadomasoquismo e voyeurismo e, portanto, se encaixam perfeitamente no que Erika vive.

Atualmente, Jelinek tem se dedicado ao teatro, deixando de lado a literatura propriamente dita. Profícua e inesgotável, ela é certamente uma das figuras mais importantes do meio literário europeu. Seus trabalhos são sempre bombásticos, como pimenta nos olhos. O seu gosto pelo experimentalismo, a necessidade de colocar o leitor e o personagem em enrascadas fazem com que seja incompreendida em seu próprio país.

Tamanha ousadia coloca Elfriede Jelinek no rol de persona non grata de alguns grupos. A barbárie e o boicote de que já foi vítima provam sua genialidade. Ter recebido o Nobel levou a autora do céu ao inferno, acabando por ser agredida por críticos em suplementos literários da Áustria. De certa maneira, voltamos à teoria da sublimação e desembocamos no recalque.

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Tags: A PianistaCríticaCrítica LiteráriaDesejoElfriede JelinekFreudLiteraturaLiteratura AustríacaMichael HanekeTordesilhas

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