• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Literatura

‘A Sinagoga dos Iconoclastas’: a realidade é ridícula

porEder Alex
4 de maio de 2016
em Literatura
A A
A Sinagoga dos Iconoclastas Juan Rodolfo Wilcock

Juan Rodolfo Wilcock. Foto: Divulgação.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

A Sinagoga dos Iconoclastas é último livro da bela coleção Otra Língua, da editora Rocco, que também publicou o ótimo Cantiga de Findar (leia a crítica aqui). O projeto capitaneado por Joca Reiners Terron visa apresentar uma literatura latino-americana que andava em falta nas prateleiras brasileiras.

O livro escrito por Juan Rodolfo Wilcock, com tradução de Davi Pessoa, é uma prova de que nem só de Borges e Bioy Casares vive a literatura argentina. A obra publicada originalmente em 1972 é uma espécie de enciclopédia completamente surtada, no sentido Monty Python do termo, que nos apresenta grandes nomes da História que na verdade nunca existiram.

Temos, por exemplo, o utopista Aaron Rosenblum, um homem decidido a fazer a humanidade mais feliz: “A ideia era demasiadamente simples; não foi o primeiro a pensá-la, porém foi o primeiro a levá-la até as últimas consequências. Apenas sobre o papel, porque a humanidade nem sempre tem vontade de fazer aquilo que deve fazer para ser feliz, ou para sê-lo prefere escolher seus próprios meios, que em todo caso, como os melhores planos globais, também provocam mortes, torturas, prisões, exílios, esquartejamentos, guerras”. O plano de Rosenblum consiste em reproduzir na atualidade o período mais feliz da humanidade segundo ele mesmo, a saber: 1580. Para isso, seria necessário abolir todo o tipo de desenvolvimento que tenha ocorrido de lá para cá, como os carros, a luz elétrica, os Direitos Humanos, o século XIX, os finais de semana, o voto e os Estados Unidos, por exemplo. Isso tudo implicaria em promover a escravidão, a perseguição aos judeus e a peste. Só assim, segundo o utopista, a humanidade alcançaria a felicidade. O problema é que no meio do caminho surge um senhor de bigode na Alemanha com ideias muito parecidas que acabam ofuscando a genialidade de Rosenblum.

Já Charles Piazzi-Smyth, um astrônomo escocês, fundou a piramidologia e seus estudos sobre as três pirâmides de Gizé influenciaram o norte-americano Charles Taze Russell. O morador da Pensilvânia, líder de uma seita de Testemunhas de Jeová, percebeu nas pesquisas piramidais de Charles, cálculos precisos que o levaram a uma obscura referência à volta do messias e chegou à conclusão de que no Juízo Final “Os mortos renasceriam, e naquele momento seria concedida a eles uma segunda possibilidade de escolha: aceitar ou não Jesus Cristo. Os que não o aceitavam eram eliminados; assim o mal teria desaparecido do mundo. As Testemunhas, ao contrário, o aceitavam e se tornavam eternas”. Como Jesus não apareceu na data prevista, os estudiosos concordaram que ele realmente veio para a Terra, mas preferiu não falar com ninguém.

A imaginação de J. Rodolfo Wilcock vai desde um inventor de bomba d’água movida a dezenas de cachorros, até um escritor que escreve romances de sucesso numa linha de montagem com vários funcionários. Dotado de um humor bastante peculiar, entupido de erudição e falta de senso de ridículo, o escritor tira sarro de tudo e de todos, com destaque para a ciência e a religião, tal como o fez Douglas Adams, poucos anos depois.

Uma das coisas mais divertidas do livro é o estilo da escrita, pois o autor emula a sisuda linguagem acadêmica, com citações e tudo, e em diversos momentos o leitor quase esquece que aquilo que está lendo é tão insano quanto genial. O que impressiona nesta obra é que aquelas pessoas são tão ridículas que parecem de verdade.

Dotado de um humor bastante peculiar, entupido de erudição e falta de senso de ridículo, o escritor tira sarro de tudo e de todos, com destaque para a ciência e a religião.

Ao explicar que o pensamento moderno nasceu de uma máquina que embaralhava palavras completamente aleatórias de acordo com a sua sintaxe, dando origem a frases de efeito como “O inferno são os outros”, Wilcock sacaneia a filosofia, ao mesmo tempo em que faz uma dura crítica a um modelo de discurso e à nossa falta de rumo. E o livro está repleto de momentos assim e outros até mais perturbadores, como quando vemos o escritor Charles Carrol defender que os negros foram criados por Deus junto com os animais, tendo como único objetivo de que Adão e seus descendentes não necessitassem de garçons, lavadores de pratos ou engraxates no Jardim do Éden, sendo que Eva foi tentada não por uma serpente, mas sim por uma criada negra. O autor segue com um discurso racista até concluir que Alexandre Dumas podia até saber escrever bem, mas isso não significava que ele tinha uma alma.

A imbecilidade do discurso racista fica ainda mais interessante quando vemos a história do evolucionista que estudava a bíblia (!?) e descobriu que, por um erro de tradução do hebraico, a evolução da humanidade foi compreendida de forma equivocada, completamente ao contrário.

Wilcock expõe nosso ridículo de modo a nos fazer rir, pensar e até mesmo nos envergonhar daquilo que nos tornamos. É um tipo de leitura que primeiro diverte, mas que logo em seguida perturba e fica ecoando na mente, principalmente nestes tempos em que a realidade compete com a ficção para saber qual delas consegue ser mais absurda.

A Sinagoga dos Iconoclastas é de longe um dos melhores lançamentos desse ano.

fb-post-cta

Tags: A Sinagoga dos IconoclastasCríticaCrítica LiteráriaEditora RoccoJ. Rodolfo WilcockJuan Rodolfo WilcockLiteraturaLiteratura ArgentinaOtra LínguaResenhaReview

VEJA TAMBÉM

Autora tem provocado intensos debates na esquerda francesa com sua obra. Imagem: Reprodução.
Literatura

‘Fazer justiça’ analisa o avanço do punitivismo dentro dos movimentos progressistas

2 de março de 2026
A escritora argentina Aurora Venturini. Imagem: Nora Lezano / Reprodução.
Literatura

A união feminina como sobrevivência em ‘As Primas’

27 de fevereiro de 2026
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Autora tem provocado intensos debates na esquerda francesa com sua obra. Imagem: Reprodução.

‘Fazer justiça’ analisa o avanço do punitivismo dentro dos movimentos progressistas

2 de março de 2026
A escritora argentina Aurora Venturini. Imagem: Nora Lezano / Reprodução.

A união feminina como sobrevivência em ‘As Primas’

27 de fevereiro de 2026
Zach Condon retorna com o Beirut após quase 12 anos. Imagem: Lina Gaisser / Divulgação.

C6 Fest – Desvendando o lineup: Beirut

27 de fevereiro de 2026
Jane Fonda em Hanói, no Vietnã. Imagem: Pentimento Productions / Divulgação.

‘Jane Fonda em Cinco Atos’: as muitas vidas de uma estrela ativista

26 de fevereiro de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.