• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Literatura

‘Ainda Estou Aqui’: carta à mãe

Em 'Ainda Estou Aqui', Marcelo Rubens Paiva tece suas memórias e reivindica uma narrativa digna à mãe.

porMaura Martins
26 de janeiro de 2016
em Literatura
A A
Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva

Em 'Ainda estou aqui', Marcelo Rubens Paiva conta a história da mãe. Imagem: Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

À memória cabe a missão tanto de enterrar o passado, quanto de fazer permanecê-lo acessível. “Nosso cérebro foi feito para guardar o passado e trazê-lo à tona quando precisamos, para esclarecer uma situação do presente. Se não fosse esse truque do cérebro, acharíamos que o passado continua presente. Enlouqueceríamos”, diz Marcelo Rubens Paiva em Ainda Estou Aqui (editora Objetiva), um livro de memórias não apenas suas, mas da história de sua família. Em especial, a história de sua mãe, cuja memória se torna a cada momento menos acessível: ela tem Alzheimer.

A obra, bastante tocante, reivindica um lugar na história do país para Eunice Paiva, viúva do engenheiro e deputado Rubens Beyrodt Paiva, cujo mandato foi cassado no golpe militar em 1964. Em 1971, após ser preso com a mulher e a filha mais velha, Paiva desapareceu. O nebuloso episódio – os militares encenaram uma suposta fuga do ex-deputado com auxílio dos “comunistas”, para forjar as situações de sua morte – que foi parcialmente esclarecido apenas em 2014, quando novos documentos encontrados com militares mortos trouxeram pistas em relação ao que de fato aconteceu. O certificado de óbito de Rubens Paiva apenas foi emitido em 1995. O corpo nunca foi encontrado.

Paralela a esta história oficial, registrada e recontada em tantos documentos, vive uma narrativa outra, entendida muitas vezes como menos interessante, e que habita na memória de gente como Eunice Paiva e de seu filho Marcelo, a quem coube a tarefa de trazer preservação a um pedaço de uma memória coletiva que se esvai. Assim, em Ainda Estou Aqui, assistimos ao Brasil sob a perspectiva dos que ficaram, os que apoiaram aqueles que lutavam por um país menos arbitrário, os que nadavam contra uma corrente política ditatorial que se travestia sob o discurso do progresso.

Marcelo Rubens Paiva aqui reivindica a narrativa de uma mulher que, da sua forma, resultante de seus próprios esforços, talvez tenha feito muito mais pela nação do que o famoso pai. Reduzida a um papel de “viúva sem marido morto”, Eunice Paiva reinventou-se de uma dona de casa intelectualizada (formada em Letras, é definida como extremamente pragmática, uma mulher que preferia a companhia dos livros ao tempo passado com as crianças) a uma advogada militante dos direitos humanos e especializada na causa indígena.

Paralela a esta história oficial, vive uma narrativa outra, entendida muitas vezes como menos interessante, e que habita na memória de gente como Eunice Paiva e de seu filho Marcelo, a quem coube a tarefa de trazer preservação a um pedaço de uma memória coletiva que se esvai.

Ainda Estou Aqui mistura então relato histórico, marcado por uma ideia de afastamento e objetividade, e memórias pessoais afetadas pela visão inevitavelmente parcial de quem esteve presente em algum fato. Há, portanto, uma tensão interessante entre a narrativa da história, algo desencarnada, embora precisa, contada, por exemplo, nas escolas – livros e relatos que Marcelo Rubens Paiva critica em entrevistas, sobretudo pelas “comparações esdrúxulas” e deseducadoras muitas vezes feitas por professores – e a narrativa do testemunho, sempre entrecortada pelos filtros das memórias e pelas ideologias nas quais as pessoas escolhem habitar. A obra então consegue encontrar um equilíbrio entre ambas as visões, especialmente por assumir que são complementares e não excludentes.

O livro comove por ser uma tentativa de um acerto de contas de Marcelo Rubens Paiva com sua mãe, cuja relação parece um tanto atribulada (haveria alguma relação pais/filhos que não é?). Agora adulto e também pai, Paiva parece produzir a obra como uma forma de finalmente compreender, perdoar (e perdoar-se) frente à mãe, que tantas vezes desejou que fosse outra. Em Ainda Estou Aqui, pretende fazer jus àquela mulher cujas lições só foram compreendidas tardiamente: a escolha pela luta via resistência, pela subversão à ditadura no tom frente às mídias (não chorar e posar como vítimas quando esperavam que fosse), pela não violência, pela não culpabilização dos indivíduos que perpetuaram as torturas, mas na condenação do sistema e não de suas engrenagens.

O tema da tragédia da perda da memória tem sido recorrente na mídia nos últimos anos (basta lembrar dos filmes Amor?, de 2012, e Para Sempre Alice, de 2015, ambos amplamente discutidos). Ainda Estou Aqui acrescenta nuances à discussão por meio de um relato afetuoso, em linhas delicadas, trazendo permanência e importância à vida de Eunice, mas, sobretudo, à história do Brasil, que ainda está aqui, mesmo que muitos pareçam esquecê-la. Em tempos um tanto sombrios, em que muitos espantosamente se deixam se seduzir pelas promessas de um regime repressor, esta se torna uma leitura obrigatória.

AINDA ESTOU AQUI | Marcelo Rubens Paiva

Editora: Alfaguara;
Tamanho: 296 págs.;
Lançamento: Agosto, 2015.

ESCOTILHA PRECISA DE AJUDA

Que tal apoiar a Escotilha? Assine nosso financiamento coletivo. Você pode contribuir a partir de R$ 15,00 mensais. Se preferir, pode enviar uma contribuição avulsa por PIX. A chave é pix@escotilha.com.br. Toda contribuição, grande ou pequena, potencializa e ajuda a manter nosso jornalismo.

CLIQUE AQUI E APOIE

Tags: Ainda estou aquiAlfaguaraCrítica LiteráriaLiteraturaMarcelo Rubens PaivaResenha

VEJA TAMBÉM

O jornalista e escritor Paulo Camargo. Imagem: Willian Zuclinski.
Entrevistas

Paulo Camargo: “Na ficção, pude avançar por territórios aos quais talvez não chegasse de outra forma”

18 de agosto de 2026
A escritora estadunidense Jen Beagin. Imagem: Divulgação.
Literatura

‘A Suíça’ é um mergulho bem-humorado na obsessão e no trauma

6 de agosto de 2026
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Regina e Gabriela Duarte: duas atrizes postas à prova. Imagem: Reprodução.

A improvável entrevista de Regina e Gabriela Duarte

27 de agosto de 2026
Imagem: Globoplay / Divulgação.

Existir é um gesto político em ‘Meu Nome É Preta’

24 de agosto de 2026
Filme de David Robert Mitchell ecoa clássicos de Steven Spielberg. Imagem: Bad Robot / Divulgação.

O espírito de Spielberg paira sobre ‘O Fim da Rua’

20 de agosto de 2026
O jornalista e escritor Paulo Camargo. Imagem: Willian Zuclinski.

Paulo Camargo: “Na ficção, pude avançar por territórios aos quais talvez não chegasse de outra forma”

18 de agosto de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.