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Home Literatura

‘Tentativas de Fazer Algo da Vida’: ou tentativas de aguentar ler o livro inteiro

Com narrativa repetitiva e enfadonha, 'Tentativas de Fazer Algo da Vida', de Hendrik Groen, desafia a paciência do leitor.

porEder Alex
8 de fevereiro de 2017
em Literatura
A A
tentativas de fazer algo da vida hendrik groen

Arte da capa: Victor Meijer.

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Fenômeno de vendas na Holanda, Tentativas de Fazer Algo da Vida foi escrito por Hendrik Groen, protagonista do livro e provável pseudônimo de algum escritor famoso lá pros lados de Amsterdã.

O livro, lançado no Brasil pela Tusquets, com tradução de Mariângela Guimarães, é um best-seller sem muita cara de best-seller. Com ritmo arrastado e praticamente sem ganchos narrativos que prendam minimamente o leitor, chega a ser curioso que a obra tenha se tornado tão popular. Apostaria a bengala de uma vovozinha que um livro assim jamais teria chances nas listas de mais vendidos aqui do Brasil.

E o problema não está no tema (a terceira idade já rendeu uma porrada de livros excelentes), mas sim na forma como as coisas são conduzidas.

Groen é um senhor de oitenta e três anos que vive em uma casa de repouso. Ao ter que enfrentar uma rotina modorrenta e bem repetitiva, em que as horas são marcadas pela sequência de refeições insossas e conversas enfadonhas, o velhinho começa a escrever um diário e também passa a tentar dar algum significado para a sua existência, numa tentava de organizar a sua mente e seu coração por escrito.

Cada capítulo é um dia registrado no diário, então tudo é contado de forma bastante simplificada, desde o tédio até as pequenas alegrias. Num tempo em que a população envelhece cada vez mais, é curioso que algum livro apresente a perspectiva da terceira idade pelo lado de dentro. Estamos ficando mais velhos graças aos avanços da medicina, mas será que estamos lidando bem com o privilégio de viver mais? O livro dá a entender que não, já que apresenta uma perspectiva pessimista, em tom de denúncia, em que os idosos, alguns simpáticos, outros nem tanto, são sempre relegados ao segundo plano. E olha que eles estão no primeiro mundo, imagine como as coisas funcionam por aqui…

Com uma linguagem bem simples e um ritmo bem precário, Groen reproduz o seu enfado também na forma como conta o seu dia a dia praticamente sem emoções, tanto pra ele, quanto pro leitor, que precisa ser perseverante pra seguir adiante e encontrar aqui e ali alguns poucos bons momentos, como o assassinato dos peixes, que compensem a leitura.

Há algumas reflexões a respeito da eutanásia, mas nada que seja minimamente aprofundado. Questões sobre o direito dos idosos são discutidos de forma mais ampla, bem como os aspectos relacionados à estrutura e às regras das casas de repouso na Holanda. Obviamente um grande leque de doenças, bem como os seus sintomas, também acaba sendo bastante explorado na narrativa.

Com uma linguagem bem simples e um ritmo bem precário, Groen reproduz o seu enfado também na forma como conta o seu dia a dia praticamente sem emoções.

Alguma emoção surge quando um grupo de amigos vai se formando, novos personagens vão surgindo e sendo desenvolvidos e aí o ambiente em que a morte é uma coisa rotineira passa a ter um peso ameaçador muito maior. Algumas despedidas são bem tocantes. O livro tenta discutir e apresentar uma nova perspectiva a respeito do envelhecimento. O que Groen faz, numa pegada que quase esbarra na autoajuda, é deixar de lado um pouco das reclamações e não desperdiçar os seus dias naquela instituição, para isso ele procura aprofundar os laços de amizade e aproveitar todas as oportunidades (eu ouvi alguém gritar carpe diem?).

É curioso que um livro em forma de diário fale tão pouco sobre o seu narrador. Ao longo de todo o ano em que acompanhamos os seus escritos, temos acesso apenas a informações bem superficiais sobre o seu passado e uma coisa ou outra sobre a sua família, pois o foco de tudo que ele escreve está muito mais voltado para o mundo ao seu redor, mesmo que seja um mundo com apenas alguns pouquíssimos metros quadrados.

Apesar da capa linda e do ótimo título, Tentativas de Fazer Algo da Vida é bem frustrante, pois falha tanto como literatura de entretenimento (o livro é chato pra caralho), quanto como narrativa mais séria, uma vez que nas duas situações o autor apenas arranha a superfície e alcança poucos bons momentos. Em resumo, trata-se de um livro bem esquecível. Se for pra ler histórias sobre velhinhos decrépitos, melhor optar por um Philip Roth da vida.

TENTATIVAS DE FAZER ALGO DA VIDA | Hendrik Groen

Editora: Tusquets;
Tradução: Mariângela Guimarães;
Tamanho: 368 págs.;
Lançamento: Novembro, 2016.

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Tags: CríticaCrítica LiteráriaEditora TusquetsHendrik GroenLiteraturaLiteratura HolandesaResenhaReviewTentativas de fazer Algo da Vida

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