As jornalistas Anna Virginia Balloussier e Angela Boldrini publicaram ontem, no jornal a Folha de S. Paulo, a matéria Mulheres dirigem 16,5% dos filmes nacionais, sobre o machismo que impera no cinema brasileiro. Em meio aos dados e relatos alarmantes sobre o modo com que o machismo e a misoginia operam no universo cinematográfico (entre as entrevistadas estão Anna Muylaert, diretora de Que Horas Ela Volta?, e Petra Costa, diretora de Olmo e a Gaivota), a reportagem apresenta um panorama dos recentes eventos que ocorreram envolvendo a mulher e as questões feministas. Elas dizem:
“Discussões sobre o feminismo vieram em onda nos últimos dias. Apareceram na prova do Enem. Em protestos contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), autor de projeto de lei que dificulta o aborto legal. Na campanha #meuprimeiroassédio –após homens fazerem comentários libidinosos sobre uma cozinheira do MasterChef Júnior, mulheres foram à internet relatar abusos.
E teve, na semana passada, a campanha #AgoraÉqueSãoElas, na qual colunistas homens ‘emprestaram’ seu espaço para textos femininos”
Foi com esse cenário que, na quarta-feira, dia 4, na edição de novembro do Cena HQ, aconteceu a leitura dramática da obra Beladona, de Ana Recalde e Denis Mello.
Desde 2012, o Cena HQ, projeto realizado em Curitiba, com a parceria entre a companhia Vigor Mortis e a Quadrinhofilia, promove o encontro entre o universo dos quadrinhos e o do teatro. O espaço do teatro da Caixa Cultural é o lugar em que acontecem as leituras dramáticas de Histórias em Quadrinhos de autores de diversas nacionalidades. A cada mês, a montagem de uma obra, com direção e elenco diferentes. Ao final da leitura dramática, o evento conta com um debate que, geralmente, é feito com a presença dos autores do quadrinho em questão. A curadoria é de José Aguiar (autores) e de Paulo Biscaia Filho (encenadores).
Ainda que não seja um evento especificamente de teatro, o Cena HQ apresenta interessantes pontos para se pensar sobre as artes cênicas – evidentemente a partir de uma encenação idealizada enquanto leitura dramática de uma dramaturgia que é, antes de tudo, uma história em quadrinhos.
No entanto, o que me interessa ao escrever sobre essa edição, especificamente, é a pertinência com que o evento cênico surge. Uma equipe inteiramente composta por mulheres se reúne tendo como tema, ainda que não diretamente, o empoderamento da mulher em um momento em que o assunto não poderia se fazer mais presente. A encenação, cuja direção é assinada por Angela Stadler, criou um espaço em que foram articuladas grande parte das temáticas que tomaram a internet e as ruas nas últimas semanas.

A obra “conta a história de Samantha, uma criança de 7 anos, assombrada por pesadelos macabros” e que entre a realidade e o universo onírico, a medida que cresce, encontra forças para se autoafirmar e promove um interessante trajeto que envolve a desconstrução da dominação masculina.
A encenação criou um espaço em que foram articuladas grande parte das temáticas que tomaram a internet e as ruas nas últimas semanas.
O próprio universo dos quadrinhos brasileiro viveu seu triste episódio de misoginia e machismo quando o principal evento do país fez um material de divulgação absurdo (leia aqui) – Ana Recalde, autora de Beladona, no HQ Mix, o evento em questão, fez um discurso que homenageava ” todas as mulheres que se dedicam aos quadrinhos: as que fizeram antes de mim, as que fazem junto comigo e as que ainda farão”.
As poucas informações que apresento aqui parecem já, minimamente, compor um quadro que indica a necessidade e a importância das lutas das mulheres que, obviamente, não precisa de aprovação e legitimação de ninguém a não ser elas mesmas. Nesse sentido, o espetáculo, apresentado uma única vez, dado o formato do evento, revelou interessantes questões para se articular: teatro e gênero, a representatividade da mulher, o protagonismo, os discursos dominantes e, de certo modo, a metalinguagem, que se apresenta como importante ferramenta: não é absurdo que um elenco inteiro de mulheres, cuja atividade se volta à assuntos que permeiam as discussões feministas seja, nesse contexto, inédito?
Para somar as discussões, dois textos:
Qual a revolução feminista das capas das revistas?, de Bia Cardoso, e Parabéns, atingimos a burrice máxima, de Eliane Brum.