“Tudo é uma grande homenagem à vida, que tanto me deu e tanto me dá.”
Antunes Filho
Em primeiro lugar é preciso avisar aos caros e queridos leitores que o ótimo título desse artigo não é criação deste que vos escreve, infelizmente. No entanto, admito sem a menor cerimônia que a definição acima figura na galeria de coisas que este pouco criativo autor gostaria de ter escrito. Poeta da cena, além de ser de uma boniteza danada, é de uma precisão cirúrgica para se referir ao encenador José Alves de Antunes Filho, conhecido pelos quatro cantos do globo por conta de suas encenações, verdadeiras composições poéticas.
A composição de versos, livres ou não, tem a ver com uma laboriosa e harmoniosa associação de palavras, ritmos e imagens; o mesmo pode ser dito (e visto, já que o homem está na ativa, graças a Deus!) a respeito das encenações desse paulistano que passou a infância no também poético bairro do Bixiga, centro da capital paulista.
Antunes Filho: poeta da cena é o título do livro do fotógrafo Emidio Luisi e do saudoso crítico teatral Sebastião Milaré, lançado em 2010 através das Edições SescSP. Além do livro, uma exposição de Emidio composta de 33 fotografias em preto e branco viajou pelos Sescs Brasil a fora com o mesmo nome e, algum tempo depois, a expressão reaparece aqui no título da coluna “Em Cena” dedicada à publicação. E que publicação!
São ao menos seis anos de atraso de minha parte para tomar conhecimento do livro. Para alguém que se diz do riscado, é muito tempo, convenhamos. No entanto, há sempre uma espécie de delonga em minha vida em se tratando desse grande mestre da cena. Creio que isso acontece por conta de Antunes Filho ser alguém a ser saboreado e não devorado. Demorei, e não sei até hoje explicar o motivo, para assistir pela primeira vez a um de seus espetáculos.
Algumas vezes os ingressos esgotavam, como ainda esgotam, num vapt-vupt feito a sua falecida que me tomou de assalto. Em outras, simplesmente acabava me perdendo no caminho pro teatro, uma vez de ingresso em mãos, esquecido pelo tempo e pela vida no fundo de algum botequim que “pintou do nada”. Sempre a nova velha história. Apesar de nosso tempo particular, eu e Zé Alves acabamos sempre nos esbarrando e a cada esbarrada o homem dá um jeito de sacudir minha vida. Aconteceu há pouco, numa biblioteca do Sesc, enquanto aguardava o início de um evento no teatro, e eu só tenho a agradecer o homem pelo retorno. Já estava com saudades!
O livro é um belíssimo registro das montagens de Antunes, desde os anos 70 com Macunaíma, obra-prima de Mário de Andrade, levada ao palco com maestria pelo encenador, até Lamartine Babo, homenagem de Antunes ao também genial compositor. Pelo caminho encontramos de tudo: dos clássicos como Medéia e Macbeth até a brasileiríssima epopéia de Suassuna, A Pedra do Reino. Além das peças o fotógrafo também registrou o famoso Prêt-à-Porter, projeto coordenado pelo diretor através do CPT: Centro de Pesquisa Teatral, criado e dirigido pelo diretor. O livro ainda conta com uma série deliciosa de fotos de bastidores.
O livro é um belíssimo registro das montagens de Antunes, desde os anos 70 com Macunaíma, obra-prima de Mário de Andrade, levada ao palco com maestria pelo encenador, até Lamartine Babo, homenagem de Antunes ao também genial compositor.
O trabalho de Luisi encanta. Os retratos captam perfeitamente a potência e a beleza dos “versos” encenados pelo poeta da cena. Atores consagrados e desconhecidos, todos fortes e belos, parecem resplandecer a entrega total exigida por Antunes Filho, que possui fama de tirano nas coxias a fora por conta de sua exigência. Segundo Milaré, responsável pelos ótimos textos da publicação, “é um compromisso sagrado com o palco, uma fome de saber que transforma cada ator na síntese do conhecimento humano. Um ator que seja ao mesmo tempo intérprete e dramaturgo”.
Apesar da fama, injusta até certo ponto, não há quem resista ao sorriso do diretor. Se por um lado, Antunes Filho insiste para que seus atores afastem-se das telenovelas e exige que conheçam as grandes obras gregas, por exemplo, por outro, todos os seus “pupilos” rasgam-se de elogios a respeito do mestre, inclusive sobre a questão da disciplina exigida por ele.
A verdade é que a mente do diretor é tão complexa e encantadora quanto suas obras, justamente daí nascem não só esse tipo de história, mas também a admiração e a paixão que muitos têm por sua figura.
Através das palavras de Sebastião, é possível tomar contato com Antunes de maneira ampla e até então desconhecida. Não conhecemos apenas o diretor que contribuiu para introduzir no país a técnica do laboratório enquanto vivência do universo do personagem. Conhecemos, também, um guri que saltitava pelas ruas do Bixiga acompanhando a mãe em peças de teatro e salas de cinema, tem ainda o cuidadoso criador de um método próprio de formação de atores baseado no estudo teórico e na experimentação. São tantos Antunes a desvendar. Sorte a nossa!
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Sartre definia o teatro como uma arte suprema por ser a que melhor permite ao homem usar a sua liberdade para estimular a liberdade da platéia, e o diretor do CPT fez da própria liberdade sua maior bandeira. Reinventou Nelson Rodrigues e é indiscutivelmente o encenador que melhor o traduziu pros palcos. Redefiniu a tradição teatral, criou idiomas imaginários para suas encenações, foi ator ao interpretar o Ernesto de Adeus Mocidade e até um dirigiu um filme, o Compasse de Espera.
O homem realmente é um devoto do teatro e da criação. São muitos os grandes que passaram por suas mãos: Shakespeare, Eurípedes, Guimarães Rosa, Lima Barreto. Ouro reluzido em ouro! Não faltam, também, cenas memoráveis de sua autoria, como a famosa briga de bolinhas de papel entre os Capuleto e os Montecchio em Romeu e Julieta ou o hino nacional sapateado até os fim das forças do Major em Triste Fim de Policarpo Quaresma. Para onde se olha há belezas, sutilezas, obras de arte.
Antunes Filho é um furacão silencioso, e é impossível não se deixar levar pela fúria do seu ventar. Evidente que é impossível condensar a história de um homem com mais de sessenta anos de teatro nas costas em algumas poucas páginas. O livro de Emidio e Sebastião não tem essa pretensão, pelo contrário: sabe exatamente onde pisa e o tamanho e a importância daquele homem de teatro.
Fotos e textos servem ao homenageado de maneira despretensiosa e fazem também poesia da melhor qualidade com a simplicidade e a beleza do respeito, da admiração e da amizade que os autores construíram com Antunes. Ao folhear as páginas, passeamos pela história de um homem, um diretor de teatro, e percebemos que se sua vida misturou-se à sua obra é preciso que ela também seja entendida enquanto mineral: compreendida e buscada na profundidade.
ANTUNES FILHO: POETA DA CENA | Emidio Luisi e Sebastião Milaré
Editora: Edições Sesc;
Quanto: R$ 58,15 (391 págs);
Lançamento: 2011.