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‘Céus’ aborda o terrorismo como metáfora da destruição

porMarianna Holtz
27 de março de 2018
em Teatro
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Céus é a última peça de uma série de quatro textos teatrais (a saber: Litoral, Incêndios e Promessas) chamada Sangue das Promessas, do libanês Wajdi Mouawad. Wajdi tem, em seus 27 de carreira, importantes trabalhos como ator, dramaturgo, diretor e produtor. Entre 2000 e 2004, dirigiu o Teatro dos Três Vinténs, em Montreal, no Canadá. Em 2005, fundou as companhias Abé Carré cé Carré (Canadá) e Au Carré de L’Hipotenuse (França). Desde 2016, ele é curador do Theatre de la Colline (França). Seu mais conhecido e remontado trabalho é a peça Incêndios, de 2003, que teve uma adaptação para o cinema, dirigida por Dennis Villeneuve (de A Chegada), indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

No Brasil, Incêndios foi montada em 2013 por Aderbal Freire Filho e Felipe de Carolis no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro. A montagem foi vencedora dos prêmios APTR, Aplauso, CENYMS e Arte Qualidade Brasil. O enredo apresenta a história de Jeanne (Keli Freitas) e Simon (Felipe de Carolis), irmãos gêmeos que a pedido de sua mãe, em testamento, procuram por um irmão que nem ele nem o pai sabiam existir e pensavam estar morto. Nesta viagem de busca redescobrem o passado da mãe, Navval (Marieta Severo), e, por consequência, história deles mesmos e de seu país, o Líbano.

Se em Incêndios o pano de fundo macro da história é a guerra civil libanesa, em Céus é o terrorismo no século XXI. Um jovem criptografo (Felipe de Carolis) é chamado para substituir seu antigo professor, Valery Masson (Aderbal Freire Filho em vídeo), e ajudar a desvendar o motivo de seu suicídio. A resposta está em seu computador, assim como todas as demais respostas para este século parecem estar ligadas à tecnologia. Na célula – uma espécie de bunker isolado -,  trabalham na intercepção de dados e investigação de possíveis ataques terroristas, tendo como objetivo principal ao longo do espetáculo descobrir e evitar um ataque global iminente. Na equipe, estão Charlie Eliot Johns (Marco Antônio Pâmio), Blaise Centier (Isaac Bernat), Vincent Chef-Chef (Rodrigo Pandolfo) e Dolorosa Haché (Karen Coelho).

Aderbal Freire Filho toma decisões arriscadas e difíceis ao tornar a peça ainda mais coreografada e matemática em sua partitura, para além da já complexa estrutura de Wajdi Mouawad.

O cenário (criado por Fernando Mello da Costa) resume-se a uma gigantesca tela de fundo, na qual são projetados vídeos durante todo o espetáculo, além de uma mesa de trabalho, cadeiras de escritório, frigobar, cadeiras postas nas laterais do palco e, por vezes, uma cama de solteiro que remete ao dormitório. A sensação de aprisionamento e isolamento promovida pelo cenário é perturbadora, bem como a atmosfera da peça. Os figurinos (de Antônio Medeiros) são bastante realistas e revelam personagens contemporâneos. A iluminação (assinada por Maneco Quinderé) e a sonoplastia (de Tato Taborda) auxiliam na criação da atmosfera proposta sem que sejam evasivos ou criem destaque especial para si.

Aderbal Freire Filho toma decisões arriscadas e difíceis ao tornar a peça ainda mais coreografada e matemática em sua partitura, para além da já complexa estrutura de Wajdi Mouawad. Felizmente são escolhas bem-sucedidas. O uso da tecnologia é constante e é também como um décimo ator em cena, que joga o tempo inteiro. Em projeção, vídeos auxiliam na construção e contextualização do enredo, além de apresentar apenas neste formato dois personagens: Valery Masson (Aderbal) e Viktor Eliot Jons (Antonio Rabello).

A obra trabalha muito com o tema da criptografia, ou melhor, da tradução de símbolos. Sejam eles obras de arte, línguas, música, política, geografia, escalas numéricas e códigos binários. Wajdi faz uma profecia possível: em um cenário próxima: a destruição das artes pela política e o ódio, assim como pregava o movimento de vanguarda futurista.

Em Curitiba, o espetáculo fez temporada nos dias 23 e 24 de março no Teatro Guairinha, sendo que no sábado a sessão contou com interprete de libras e bate-papo posterior à apresentação. Céus segue em temporada nos dias 6 e 7 de abril no Teatro Mãe de Deus (em Londrina).

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Tags: Aderbal Freire FilhoCéusCrítica TeatralIncênciosResenhaSangue das PromessasTeatroterrorismoWajdi Mouawad

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