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Home Teatro

Quando o amanhecer estraçalha sonhos

porBruno Zambelli
12 de novembro de 2015
em Teatro
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Sempre tive pelos sonhos, e isso é absolutamente perceptível em tudo o que faço, um encanto tremendo. Muito desse encanto se deve, ao menos em minha opinião, à minha visão pessimista de mundo. Logo cedo me tornei um desencantado, vejam só a incoerência, pela vida. Nunca reagi bem a certas impossibilidades e confesso que só piorei com o tempo.

A vida, essa garota atrevida, nega-me seus prazeres mais saborosos a todo instante. Sempre me precipitei diante de seus braços, apesar de poucas vezes me sentir acolhido, e isso me trouxe a insegurança que atormenta os ansiosos que, como eu, sofrem com o mal da urgência. De alguma maneira, num entendimento um tanto infantil, acabei ligando a ideia de sonho ao sono e, consequentemente, à noite; acredito que venha daí o meu gosto inconsequente pelos encantos da madrugada.

O fato é que segui, e ainda sigo, sonhando, um tanto quanto só, pelos caminhos sinuosos da existência. Com o tempo descobri o teatro e a existência passou a ter outro significado. Passei a me reconhecer através dos palcos, mesmo estando muitas vezes afastado do ofício de ator. Portanto, se minha existência se dá através da crença no sonhar, é impossível dissociar o teatro dessa vida/sonho que me rege. Assim, inicio esse texto afirmando aos senhores que Teatro é sonho!

Não é novidade crer nos sonhos através da arte. A história nos mostra inúmeros exemplos de criadores que se deixaram guiar pelo ímpeto do sonhar em suas obras. Os Surrealistas, por exemplo, possuem escritos imprescindíveis sobre o tema. André Breton, apaixonado por literatura mas não tanto pelas artes cênicas, dedicou poemas e romances ao tema. Na mesma linha, seu desafeto, o mago Antonin Artaud, tem enquanto base de seu Teatro da Crueldade a narrativa de sonhos. Além, é claro, das obras de Salvador Dalí, oníricas através desse exercício lúdico e viciante.

É inegável que teatro e sonho carregam em sua essência a liberdade, musa imprescindível das artes e daqueles que pretendem caminhar sob a vontade de sua própria desordem. Ambos são formas de arte e através deles é possível encontrar um estado de êxtase capaz de transformar, permanentemente, a vida. Sobre a vida, é preciso lembrar que com ela não existe confronto. Somos, passivamente, massacrados pela beleza de seu ir e vir desenfreado.

É inegável que teatro e sonho carregam em sua essência a liberdade, musa imprescindível das artes e daqueles que pretendem caminhar sob a vontade de sua própria desordem.

O teatro, narrativa de sonhos, é portanto uma pausa no massacre, e só isso já basta para que dediquemos nossa vida a esse “desmassacre” poético e pulsante. O amanhecer é a antítese do sono. O sol traz consigo a realidade de uma vida careta, atordoada por fantasmas inventados pela humanidade. O despertar é a castração do sonhar. Assim como a castração do teatro é a violência.

Somos despertados do devaneio cênico quando deixamos o palco e nos deparamos com a realidade que, ainda, não conseguimos modificar. Morre um pouco do teatro a cada jovem espancado por fascistas em plena Praça Roosevelt, morada das artes e da boêmia paulistana. Somos despertos de nossa crença quando nos deparamos com a notícia de que jovens estúpidos e criminosos atearam fogo em moradores de rua por pura diversão, ou quando nos encontramos impassíveis diante da tirania de um governo que fecha escolas, negando a suas crianças aquilo que lhes é de direito. O teatro, senhores, continua a sonhar, mesmo diante da dura realidade que nos assola e oprime.

Vivemos um mundo sem pôr-do-sol, uma vida que se esquece de anoitecer para que possamos nos dedicar ao delírio inconsciente desse “noitário”. Somos, infelizmente, uma geração insone que desaprendeu a fantasiar sobre a vida. É duro, maltrata a alma cansada de tanto horror.

Quando toda a claridade nos arrebata os olhos cansados, como o raiar do sol em uma manhã alcoólica, vejo passar diante de mim todo o desânimo do mundo. Não me contagio, pelo contrário: lembro-me de que por mais que eles tentem, há de despontar no céu uma lua prateada a se espelhar no mar. Ela traz em si a claridade fosca da madrugada, alumiando o canto escuro de um palco onde a vida faz um pouco mais de sentido. Ali, mesmo com todas as dificuldades, ainda é possível se deitar no colo efervescente da liberdade e, delicadamente, desfrutar do sono justo daqueles que teimam em acreditar que o sonho ainda é maior que todo o desgosto que nos cerca, em um eterno anoitecer pela vida.

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Tags: André BretonAntonin ArtaudPraça RooseveltSurrealismoTeatroteatro da Crueldade

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