“PROJETO bRASIL é um conjunto heterogêneo de ações, performances, imagens e pensamentos articulados entre si, é pensado como uma estrutura aberta que, além de existir como proposta no presente, possibilite desdobramentos e diálogos futuros, é fruto de um primeiro e fundo mergulho nas águas brasileiras, muitas vezes turvas e revoltas. (…) Reflete ainda a vivência das transformações turbulentas que vem acontecendo no mundo e sobre as quais ainda não temos clareza nem ferramentas para elaborar nossas consciências.”
Essas são algumas das palavras escritas pelo diretor Marcio Abreu no programa do PROJETO bRASIL – um material que, além da ficha técnica e fotografias, contempla textos dos artistas envolvidos e citações de autores como o filósofo Jacques Rancière e o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Textos teóricos, textos autorais, palavras que, em diálogo e justapostas, explicitam o tamanho desse projeto: tão vasto quanto possível, com a complexidade inexorável do país, aqui registrado com a primeira letra minúscula.
A atualidade e a proximidade são, talvez, dois importantes elementos para se pensar sobre esse projeto. As temáticas que envolvem o grande assunto “Brasil” são reunidas em um ambiente distante do que comumente é evocado quando o assunto é o país. Aqui predomina o breu, e a cor preta está em quase tudo. Estamos tão distantes da coloração do estereótipo e, assim, tão imersos em questões cortantes e “reais”. Desse modo, paradoxalmente, o que se vê está empenhado em revelar: é de distâncias que é feita nossa identidade. O que é próximo não o é senão pela diferença, indica a dramaturgia, assinada pelo elenco, composto por Giovana Soar, Nadja Naira e Rodrigo Bolzan e pelo diretor Marcio Abreu.

A montagem é resultado de um longo processo do qual fizeram parte “uma modesta ‘expedição’ pelas 05 regiões do país e o estudo de uma diversificada bibliografia que busca pensá-lo de diferentes formas”. O país, portanto, não é tema distante, mas é vivência, experiência – e, isso, ao que consta, com fundamentação antropológica e filosófica. Rancière e Viveiros de Castro, por exemplo, surgem como teóricos que discorrem, respectivamente, sobre política e estética em um contexto democrático permeado por desejos de um consenso ao invés da criação/efetivação de dissensos, e sobre o índio no Brasil.
A brutalidade não dá espaço para nenhum tipo de enfeite ou eufemismo. Está cru e com algumas fraturas expostas esse bRASIL.
Ao expor questões que envolvem os modos de vida e produção, assim como “o momento ascendente e contraditório que vivemos hoje no nosso país, com transformações em ritmo acelerado”, a violência, os fundamentalismos fundantes, as contradições e a suposta euforia surgem indicando a truculência dos nossos dias. A brutalidade não dá espaço para nenhum tipo de enfeite ou eufemismo. Está cru e com algumas fraturas expostas esse bRASIL – ainda que neguemos, ainda que nos esforcemos para mantê-lo não nomeado, não identificado, distante.
A construção performática da peça corporifica e personifica os discursos sobre um vasto território, uma nação plural, que se apresenta muito mais do que um objeto de pesquisa, mas como um polo do qual surgem inúmeras possibilidades de afeto. Existe uma relação pessoal, uma voz absolutamente própria ao se colocar em cena pautas recentes envolvendo o casamento e a adoção por casais homoafetivos, a noção de família e a questão do índio, o homem nu, por exemplo. Tópicos de nossa história que soam desgastados e necessários, antigos e vitais. A história é cínica e insuficiente. A realidade é construção.
As relações, as reflexões, parecem tomar maiores proporções quando o próprio teatro volta-se para si: o que, exatamente, significa criar uma peça de teatro, sendo um artista brasileiro, sobre o Brasil? No que encostar e do que não se aproximar? Como se ver no outro? Por que se ver no outro? E por que falar sobre isso?
Uma peça que se refere a lugares específicos olhando para o mundo, para a América Latina, para a parte do mundo que não é Norte, para a globalização, para os jeitos de se consumir, pensar, amar e criar – que parecem ser um só, o mesmo tom institucional e descartável. A criação de um espaço para se (re)pensar o projeto do qual, de alguma maneira, todos fazem parte. Mas, quem explica? Quem defende? Quem define? Quem toma a palavra?
O nome e a fotografia desse texto têm como referência um trabalho de Nuno Ramos, chamado “Iluminai os Terreiros” que me parece um interessante material para se acrescentar ao debate sobre uma suposta “identidade brasileira” (leia aqui).