De tempos em tempos, somos impactados por um tipo específico de escândalo no jornalismo televisivo: o vazamento de alguma informação (geralmente um áudio) que circulou nos bastidores, e que não deveria ter chegado ao público. O caso da vez envolve o apresentador Guilherme Rivaroli, atualmente comandante do Balanço Geral na RIC TV, afiliada da Record no Paraná.
Um áudio do apresentador vazou no YouTube da emissora durante a transmissão do telejornal. Naquele dia, o Balanço Geral cobria um desaparecimento de um jovem de 19 anos enquanto fazia uma trilha. No vazamento, Rivaroli festejava os índices de audiência obtidos pela cobertura e ironizava: “podia ter um desaparecido por dia”. Na sequência do áudio, ele comemora ter passado a concorrência: “não vão nos alcançar. No final a gente passou de novo eles (a Rede Massa, afiliada do SBT) com a mesma história. Acho que deu 4,3 a 3,3 de média pra nós” (saiba mais aqui).
Rivaroli apresenta o jornal há pouco mais de um mês, e foi contratado com a perspectiva de aumentar os níveis de audiência. A situação (obviamente lamentável) expõe as entranhas do funcionamento de um telejornal, algo que costuma ser protegido da audiência. Eventualmente, situações semelhantes, com mais ou menos gravidade, acontecem – um dos episódios mais marcantes talvez seja quando William Waack, em 2017, teve um momento de bastidor vazado no qual fazia comentários racistas.
Ao longo da Escotilha, discutimos em vários momentos a questão dos impactos provocados por essas “sobras” de interação quando elas vêm a público, já que elas costumam reiterar aquele célebre ditado: “se as pessoas soubessem como são feitas as salsichas e as leis, não comeriam nem dormiriam tranquilas”. Adaptado aqui, poderíamos dizer que, se as pessoas soubessem como os jornais são feitos, provavelmente não acreditariam neles.
O argumento faz sentido, mas carrega uma falácia. Ele apaga o fato de que isso serve para todas as profissões, sem exceções. Se os alunos soubessem o que os professores deles falam quando não estão em sala, provavelmente os questionariam. Se os pacientes soubessem o que falam os médicos em sua ausência, cogitariam processá-los. Faz parte do funcionamento da vida social: temos performances diferentes quando estamos na frente de uma plateia e quando estamos apenas entre os nossos (esse processo foi explicado pelo sociólogo Erving Goffman no clássico A Representação do Eu na Vida Cotidiana).
A discussão que proponho neste texto é de outra natureza. É, na verdade, uma provocação. A fala infeliz de Rivaroli revela, no fundo, a pressão por números de audiência em um telejornal frente aos seus concorrentes. Vale lembrar que o apresentador foi contratado recentemente no intuito de elevar esses níveis, uma vez que o jornalístico enfrentava índices muito baixos. Dito de outra forma, foi levado para a Record justamente para jogar este jogo.
Mas há um detalhe importante. Com leves diferenças nas praças, o programa Balanço Geral costuma ficar ao ar diariamente por cerca de 4 horas. Sem dúvida, é muito tempo para preencher uma agenda diária de um telejornal – a cobertura do jovem desaparecido, por exemplo, ocupou nada menos que 70 minutos do noticiário.
Por isso, um questionamento possível seria: caso os telejornais fossem mais curtos, é provável que muitas coisas (como a enrolação, as longas transmissões ao vivo, as pautas sem relevância) ficassem de fora. Os telejornais seriam melhores?
Por que alguns telejornais são tão longos?
Em novembro de 2025, uma notícia foi repercutida por todos os telejornais de São Paulo, incluindo alguns de abrangência nacional. Um motorista de carreta ficou, por mais de quatro horas, parado no Rodoanel na capital paulista. O homem teria sido assaltado e amarrado com explosivos, e ficou lá até ser resgatado pelo Esquadrão Antibombas.
Todo o episódio foi transmitido ao vivo, em tempo real, pelos telejornais matutinos do estado. Praticamente todo o resto da pauta diária foi derrubada para que os apresentadores estendessem o assunto, com diversos comentários e, principalmente, com a transmissão de imagens tensas – afinal, tratava-se de um resgate emocionante em que uma bomba poderia explodir a qualquer momento.
Só que o caso teve um desfecho improvável: o homem, provavelmente passando por problemas psicológicos, havia inventado toda a história. Não havia bomba, não havia assalto, não havia nada além de um indivíduo em surto paralisando o trânsito de São Paulo – e, claro, monopolizando toda a agenda dos noticiários do dia. Na sede de acompanhar o tema em tempo real (que, com certeza, estava elevando os níveis de audiência), os telejornais deixaram de levar ao público assuntos mais úteis e optaram por envolvê-los na emoção de um assunto pouco relevante.
Crises como essa podem (e devem) ser usadas pelas emissoras para uma necessária reflexão sobre a pertinência do jornalismo que as emissoras estão fazendo.
Naquele dia, me veio o questionamento: se os telejornais matutinos e vespertinos fossem mais curtos, será que haveria espaço para tanta enrolação? Será que, se este tempo fosse mais enxuto, os jornais deixariam de veicular notícias descartáveis como essa – ou dedicariam menos tempo a elas?
A resposta parece óbvia: é claro que sim. Mas então por que isso não acontece? Certamente este é um tópico complexo. Mas é preciso atentar ao fato de que, nas emissoras privadas, todos os programas (incluindo os jornalísticos) estão atrelados a questões comerciais. Jornais mais longos, se adquirem boa audiência e repercussão, dão espaço a mais anunciantes, com contratos mais gordos, que, inclusive, irão custear outras atrações das emissoras. Em algumas das redes, aliás, a publicidade se insere dentro dos próprios noticiários.
Portanto, encurtar os jornais acarretaria em uma reconfiguração comercial nessas empresas – o que significaria impactos nos programas, nos profissionais e, em última instância, na qualidade do jornalismo. Tudo isso serve também para contextualizar melhor o episódio de um apresentador flagrado comemorando os níveis de audiências obtidos por uma tragédia, sendo ele mesmo apenas a roda de uma grande engrenagem que seguirá funcionando mesmo se ele não estiver lá.
Não obstante, crises como essa podem (e devem) ser usadas pelas emissoras para uma necessária reflexão sobre a pertinência do jornalismo que estão fazendo. É uma oportunidade que surge de vez em quando para sair do automático e analisar o modus operandi das redações, que, quase sempre, não têm tempo de parar e avaliar as consequências de seu trabalho.
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