Houve uma época, lá pelos anos 1980 e 1990, que era batata: os maiores sucessos nos filmes de comédia eram estrelados por um sujeito de cabelo grisalho que parecia ser um pai universal, sempre se metendo em roubadas e arrancando risadas constrangedoras. O humorista Steve Martin esteve à frente de pequenos clássicos como Antes Só do que Mal Acompanhado (1987), O Pai da Noiva (1991), Parenthood – O Tiro que Não Saiu Pela Culatra (1989) e muitos outros.
Nós, brasileiros, podemos nos enganar imaginando que a carreira de Martin tenha iniciado no cinema. Mas a verdade é que ele construiu uma história profunda na comédia estadunidense com nuances complexas, de difícil definição até hoje. A sua trajetória foi registrada em Steve! (martin): Documentário em 2 Partes, uma série documental em dois episódios da Apple TV+ dirigida por Morgan Neville.
Os dois episódios – que se dividem em “Then” (Antes) e “Now” (Agora) – literalmente separam a trajetória do comediante em dois momentos. O primeiro é a sua ascensão ao estrelato: crescido em uma família pouco afetuosa (ele ressalta várias vezes que nunca recebeu um abraço do pai), o jovem Steve foi se interessando pela mágica e pela sedução encontrada ao encantar as plateias. Mas ele logo percebe que o público se divertia mais quando o truque dava errado.
Ele vai se enveredando então à comédia de improviso. E, curiosamente, vai estudar filosofia e lógica avançada. Nas suas palavras, enquanto os colegas buscavam respostas para o sentido da vida, ele tentava entender os mecanismos que faziam o humor existir.
Esse primeiro episódio (daria para dizer que, no fim, são dois documentários quase independentes) opera a partir de muitas imagens de arquivo e com a voz em off dos entrevistados narrando o que vemos. A principal riqueza está no próprio esforço de Steve Martin para tentar explicar o seu tipo de humor, usando a lógica: quando entendeu que as piadas funcionavam, ele tentou subverter a fórmula.

Na prática, significa que ele resolveu interromper as piadas antes do clímax que levam às risadas, criando um desconforto baseado no nonsense e que, por isso mesmo, divertia. Em uma época pós Guerra do Vietnã em que tudo era sério e político, inclusive o humor, Steve Martin resolve se destacar investindo nas bobagens.
Foi uma jogada arriscada, claro, e por muitas vezes a imprensa o definiu como um “comediante”. Mas seu estilo, construído arduamente ao longo de quinze anos, acaba pegando na cultura popular e se torna uma febre: milhares de pessoas passam a lotar teatros para ver os seus shows enquanto vestem seus adereços, como uma tiara com orelhas de coelho e uma flecha que atravessa a cabeça, e repetem os seus bordões. Havia algo de novo e disruptivo naquele homem que estava diante delas, e ele se torna um verdadeiro rockstar da stand-up comedy.
O testemunho aqui é sobre o envelhecimento de um comediante com uma carreira de quase seis décadas, e que viu o mundo (e o humor) mudando diante de seus olhos.
Martin estava no auge. Mas o que a série documental também nos mostra são os relances da vida pessoal do comediante. Enquanto nos palcos era um homem despachado e descolado, na intimidade, Steve Martin se sentia cada vez isolado e solitário. É até curioso saber que aquele homem que tantas vezes foi o paizão no cinema, na verdade, não conseguia se relacionar com ninguém.
‘Steve! (martin)’ mostra os altos e baixos da vida de um comediante
Mas uma mudança vai acontecer quando um programa estreia na TV estadunidense. O Saturday Night Live leva ao grande público o tipo de humor que Martin vinha fazendo no stand-up. Ele entende então que havia chegado o momento de redirecionar a carreira, e passa a focar então no cinema e eventualmente na televisão (uma curiosidade: embora nunca tenha sido parte do elenco fixo do SNL, ele participou do programa mais de 50 vezes).
Essa virada é narrada no segundo episódio, “Now”, que, como o título indica, apresenta Martin atualmente, completando quase 80 anos. Aqui os entrevistados finalmente aparecem, e há uma gratificante visita à carreira cinematográfica do comediante, que explica, ao lado de seus parceiros (o principal deles é o comediante Martin Short, com quem divide o protagonismo de Only Murders in The Building), como se deu essa reinvenção.
O testemunho aqui é sobre o envelhecimento de um comediante com uma carreira de quase seis décadas, e que viu o mundo (e o humor) mudando diante de seus olhos. Ao lado de outros pilares da comédia – dão depoimentos também Jerry Seinfeld, Tina Fey, Eric Idle e o produtor do SNL Lorne Michaels – o que Steve! (martin) nos mostra é um sujeito capaz de encarar que ele não é mais a grande novidade, mas, mesmo assim, consegue existir dignamente e continuar produzindo.
Por fim, ainda que seja engraçada, a segunda parte da série é também comovente, e evidencia que Steve Martin, na velhice, conseguiu contornar a sua infância emocionalmente pobre e montar a sua própria família, a qual protege com uma tocante determinação (ele não aceita mostrar a filha no documentário e desenha um boneco para representá-la).
Mais do que isso: Steve! (martin) nos apresenta não apenas a trajetória de um comediante lendário, mas faz um apanhado fundamental sobre como o humor, que é sempre cíclico, é capaz de se reinventar ao longo do tempo.
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