“Agora eu estou acordada para o mundo. Eu estava dormindo antes. Foi assim que deixamos acontecer. Quando aniquilaram o Congresso, não acordamos. Quando culparam terroristas e suspenderam a Constituição, também não acordamos. Disseram que seria temporário, mas nada muda instantaneamente.”
São diálogos como este que fazem de The Handmaid’s Tale uma série incômoda. É certo que, como em toda distopia, a história se baseia na realidade da sociedade atual, mas o que vemos durante os dez episódios da primeira temporada (a série já está renovada para uma segunda) chamam a atenção por ser uma adaptação de um livro de 1985 e que, infelizmente, faz muito mais sentido hoje em dia, especialmente se levarmos em conta os últimos acontecimentos vistos no mundo todo.
Mas vamos a uma breve sinopse para quem não conhece. A série, produzida pela plataforma streaming Hulu, é baseada no livro homônimo de Margaret Atwood, que no Brasil ficou conhecido como O Conto da Aia, que inclusive já ganhou até uma adaptação para o cinema em 1990, chamada A Decadência de uma Espécie.
Depois que um atentado terrorista mata o presidente dos Estados Unidos e grande parte dos outros políticos eleitos, uma facção católica toma o poder com o intuito de restaurar a paz. O grupo transforma o país na República de Gilead, instaurando um regime totalitário baseado nas leis do Antigo Testamento, retirando os direitos das minorias e das mulheres em especial. Nessa nova ordem, as mulheres são divididas entre Esposa, Aia e Martha, esta última exercendo a função de serva.
Todas as mulheres férteis — as Aias — são utilizadas como concubinas exclusivamente para gerarem filhos para seus donos e manterem os níveis demográficos da população, já que a maioria das mulheres não consegue mais engravidar devido a problemas ambientais. Prostitutas, gays ou qualquer um que ofereça resistência pode ser condenado à pena de morte.

Estrelado pela excelente Elizabeth Moss (Mad Men, Top of the Lake), que vem escolhendo sempre papéis de mulheres fortes, The Handmaid’s Tale pode parecer exagerado quando se pensa em direitos civis básicos, mas no decorrer da história este exagero dá lugar ao medo.
Adaptado por Bruce Miller (The 100, ER) com supervisão da própria Margaret Atwood, a série faz o público se perguntar o quão longe realmente estamos de todo aquele horror. Caso isto acontecesse, o que faríamos? Num mundo onde vemos os homens sendo sempre privilegiados mesmo com toda a força do movimento feminista, como seria nosso comportamento se a vontade masculina se tornasse norma? Tia Lydia (Ann Dowd), espécie de tutora das Aias, responde que tudo pode parecer incomum para nós momentaneamente, mas depois de um tempo nos acostumaríamos.
Qual a maneira mais rápida de desumanizar alguém?
Embora a série peque um tantinho, quando se enxerga pretensiosa demais (algumas cenas são claramente feitas para lembrar ao público que eles estão vendo uma grande produção cinematográfica), todos os acertos de The Handmaid’s Tale se encontram nos detalhes. O cerne da produção está em seu discurso feminista e sua ponte com os protestos e desafios sobre os direitos das mulheres em pleno 2017, mas a série não se limita a isto, indo para questionamentos perturbadores sobre: como a paranoia pode mudar o comportamento de uma pessoa até ela chegar ao limite? Como acreditar em um Deus maldoso e vingativo pode destruir uma nação inteira? Como o medo geralmente desencadeia uma série de violência, tudo em busca de uma paz um tanto relativa. Qual a maneira mais rápida de desumanizar alguém? Retirando sua capacidade de propriedade para que, assim, elas possam se tornar uma?
Com cenas dirigidas pela ótima Reed Morano (Vinyl, Kill Your Darlings), The Handmaid’s Tale é visualmente impressionante. As cores são desbotadas e vão do cinza ao vermelho. A única cor realmente predominante é o preto e as cenas são quase sempre muito escuras, dando uma sensação se sufocamento e repetição. O melhor, entretanto, é que a série não tenta ser futurista ao extremo e foca mais na reação dos seus personagens, o que deixa Elizabeth Moss em um outro patamar.
Embora a atriz nunca tenha ganhado nada por Mad Men ou Top of the Lake, é bem provável que ela leve um Emmy este ano. Moss consegue passar todo o medo, ódio e esperança em pequenos detalhes, que vão desde o jeito de andar, a maneira como sorri ou até mesmo o modo de virar os olhos. Tudo é calculadamente pensado para que o público sinta a mesma opressão da personagem.

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Para melhorar, o elenco inteiro está num nível absurdo, como Alexis Bledel, que não lembra nada a Rory de Gilmore Girls ao viver uma personagem que sofre uma mutilação por ser gay (agora conhecida como traidora do gênero), Samira Wiley, a Poousey de Orange Is the New Black, que ganha bastante destaque no fim da temporada ou Yvonne Strahovski (Chuck) e Joseph Fiennes (Shakespeare Apaixonado), um casal sádico responsável por escrever boa parte das novas leis da República de Gilead.
E se já não fosse suficiente os tema perturbadores, a série consegue ainda ser um thriller de tirar o fôlego, seja nas complicações que o roteiro vai inserindo para a protagonista ou nas pequenas violências causadas para aquelas mulheres, que muitas vezes ferem mais do que a própria violência física. Sem perder o ritmo, a The Handmaid’s Tale consegue transitar perfeitamente numa obra com discurso poderoso e apresentar um entretenimento tenso.
Por fim, The Handmaid’s Tale não dá brecha para nenhum vestígio de alegria para o público e nem deveria. Afinal, basta refletirmos um pouco para perceber que tudo o que é visto na tela já acontece, em maior ou menor grau, e que muitas mulheres não precisam utilizar uma viseira branca em torno da cabeça, já que desde crianças são podadas e oprimidas. The Handmaid’s Tale não é somente a série mais significativa da plataforma Hulu, como a mais impressionante do ano.