É difícil explicar o Rádio Novelo Apresenta para quem nunca o ouviu. Costumo dizer que é um podcast que se recusa a ser previsível. Não por capricho, mas por método: cada episódio é um mergulho em uma história diferente, com tom, tema e voz próprios. O que une essa coleção heterogênea de relatos é algo cada vez mais raro no jornalismo: a vontade genuína de escutar — e de surpreender.
Conheci o programa logo nos seus primeiros episódios, em 2021, durante a pandemia, e desde então me tornei um ouvinte fiel. Não porque ele siga um formato viciante, como tantos podcasts de true crime ou entrevistas semanais. Ao contrário: o Novelo aposta no risco da reinvenção. Toda semana é outra coisa. Um novo mundo. E é isso que me interessa.
O que mais me comove no Rádio Novelo Apresenta é sua recusa ao formato industrial de produção. Cada episódio carrega um cuidado artesanal, que se nota na montagem precisa, nos silêncios bem colocados, na escolha das trilhas e, sobretudo, na pluralidade das vozes.
Um episódio emblemático é o número 101, “Fincar o Pé”, em que a repórter Tailane Muniz apresenta a história de Pedro Henrique, um jovem que decide interromper um ciclo familiar para investir em sua própria trajetória. A narrativa mostra uma profunda reflexão sobre pertencimento, ruptura e a busca por autonomia.
Outro episódio significativo é “Tempo Negro”, publicado em 3 de abril de 2025. A produção traz duas histórias centrais: primeiro, a trajetória de um preso comum durante a ditadura militar, narrada por Flora Thomson‑DeVeaux e Lucas Pedretti; depois, Natália Silva apresenta o tema “Se ninguém lembra, não aconteceu”, analisando memórias apagadas do período Esse episódio é potente por revisitar a ditadura sob perspectivas íntimas e pouco exploradas, revelando os efeitos pessoais e coletivos de um trauma nacional e questionando quem viveu e quem foi esquecido.
O que mais me comove no Rádio Novelo Apresenta é sua recusa ao formato industrial de produção. Cada episódio carrega um cuidado artesanal, que se nota na montagem precisa, nos silêncios bem colocados, na escolha das trilhas e, sobretudo, na pluralidade das vozes. Escutamos gente do Brasil todo, com diferentes modos de falar, pensar, viver. Não há sotaques apagados, nem personagens higienizados.
Em tempos de discursos prontos, o podcast se destaca por escutar o que ainda não virou frase-feita. Ao invés de reforçar certezas, ele desconcerta. Ao invés de fechar, ele abre. É por isso que sigo ouvindo: porque me desloca.
Mais do que um produto jornalístico, Rádio Novelo Apresenta é um gesto político de escuta. Um chamado à atenção, num tempo em que todos falam — e quase ninguém realmente ouve.






