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‘A Mulher da Casa Abandonada’ traz a vítima no centro da narrativa

Minissérie documental original do Prime Video, 'A Mulher da Casa Abandona', dirigido por Kátia Lund, revisita o fenômeno do podcast de Chico Felitti sem repetir sua lógica de mistério. Ao trazer pela primeira vez o depoimento de Hilda dos Santos, a obra reposiciona o foco e propõe uma escuta ética, ainda que carregue lacunas narrativas.

porPaulo Camargo
29 de agosto de 2025
em Televisão
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Podcast de Chico Felitti foi adaptado para minissérie documental da Prime Video. Imagem: Coiote / Divulgação.

Podcast de Chico Felitti foi adaptado para minissérie documental da Prime Video. Imagem: Coiote / Divulgação.

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Em 2022, o podcast A Mulher da Casa Abandonada, criado pelo jornalista Chico Felitti, se transformou em um fenômeno que ultrapassou os limites do jornalismo investigativo. O mistério em torno de uma casa em ruínas, no coração de Higienópolis, mobilizou multidões, despertou curiosidade nacional e, em pouco tempo, se converteu em obsessão cultural. Por trás da figura reclusa e enigmática de Margarida Bonetti, entretanto, o que emergia era uma história muito mais grave: a denúncia de que, por mais de vinte anos, uma brasileira havia sido submetida a condições análogas à escravidão nos Estados Unidos.

Três anos depois, o caso retorna em formato audiovisual pelo Prime Video, sob direção de Kátia Lund (Cidade de Deus). O risco de mera repetição do material já conhecido era grande, mas a série encontra uma saída singular: recoloca no centro da narrativa a vítima, Hilda dos Santos, e não a mulher que se tornou, por algum tempo, uma espécie de personagem folclórica de Higienópolis.

A aparição de Hilda é um gesto de força. Pela primeira vez, ela surge diante das câmeras para narrar, em primeira pessoa, as décadas de exploração e submissão que marcaram sua vida. Ao contrário do podcast, em que Margarida funcionava como o eixo enigmático que movimentava a investigação, o documentário privilegia o testemunho direto de quem sobreviveu. Essa inversão de perspectiva muda o tom da obra: não estamos mais diante de um enigma a ser desvendado, mas de uma violência estrutural a ser denunciada.

Essa escolha narrativa tem peso ético inegável. Ao devolver a palavra a Hilda, a série se recusa a transformar a dor em espetáculo ou a vida de Margarida em caricatura. O interesse não está em explorar excentricidades ou alimentar a curiosidade pública em torno da “mulher misteriosa da casa abandonada”, mas em dar visibilidade a quem foi silenciada durante décadas. A decisão de Lund afasta o projeto das armadilhas do sensacionalismo e aponta para uma abordagem comprometida com a dignidade da vítima.

Por outro lado, essa opção cobra seu preço. Margarida permanece como sombra difusa, sem aprofundamento histórico ou psicológico. Não há esforço para organizar uma cronologia precisa ou compreender em detalhes o processo judicial que envolveu os Bonetti nos Estados Unidos. O resultado é que, para quem não acompanhou o podcast, a série pode soar fragmentada e incompleta; para quem já conhece a história, há a sensação de uma ampliação visual, mas não necessariamente de uma investigação nova.

Do ponto de vista formal, A Mulher da Casa Abandonada encontra soluções criativas. A edição alterna entrevistas, imagens de arquivo e dramatizações, construindo um ritmo que evita a monotonia. A estética, centrada nos espaços em ruínas e nos símbolos que cercam Margarida, potencializa a atmosfera de degradação e estranhamento. Ainda assim, a força das imagens não substitui a necessidade de maior densidade narrativa: em certos momentos, a impressão é de que os recursos visuais são mais expressivos do que o próprio fio condutor da história.

Do ponto de vista formal, a obra encontra soluções criativas. A edição alterna entrevistas, imagens de arquivo e dramatizações, construindo um ritmo que evita a monotonia.

O dilema central de A Mulher da Casa Abandonada está justamente aí: ao mesmo tempo em que acerta ao recentrar a vítima e recusar o espetáculo da monstruosidade, perde densidade ao não explorar de forma mais abrangente as camadas do caso. Ficam de fora as implicações sociais mais profundas — ligadas ao racismo, às desigualdades de classe, às formas históricas de naturalização da exploração do trabalho doméstico no Brasil e no exterior. Ao não investir nesses desdobramentos, a série se mantém no registro do testemunho individual, poderoso, mas limitado.

Ainda assim, a relevância da obra é inquestionável. O depoimento de Hilda, registrado pela primeira vez com centralidade, altera não apenas a percepção sobre o caso, mas também a forma como narramos histórias de violência no Brasil. Se o podcast ficou marcado pela aura de mistério e pela espetacularização midiática, o documentário de Lund devolve humanidade ao que poderia ter sido consumido apenas como curiosidade mórbida.

No fim, A Mulher da Casa Abandonada emociona, indigna e provoca. Ao mesmo tempo em que deixa a sensação de que poderia ir mais fundo, cumpre uma função essencial: lembrar que, em histórias como essa, o mais importante não é a figura do algoz, mas a voz de quem sobreviveu.

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Tags: A Mulher da Casa AbandonadaChico FelittiDocumentárioKátia LundPrime VideoSérie

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