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Crítica: ‘Vento Norte’, o vento que antecedeu o Cinema Novo – Olhar de Cinema

Restaurado em 4K e exibido na mostra Olhares Clássicos do 15º Olhar de Cinema, o longa gaúcho 'Vento Norte' (1951), de Salomão Scliar, ressurge não apenas como documento histórico, mas como obra capaz de revelar caminhos pouco explorados da formação do cinema brasileiro.

porPaulo Camargo
11 de junho de 2026
em Cinema
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Filme se passa no litoral gaúcho. Imagem: Reprodução.

Filme se passa no litoral gaúcho. Imagem: Reprodução.

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Existe algo de revelador em assistir a Vento Norte hoje. Não apenas porque o filme, dirigido por Salomão Scliar e lançado em 1951, reaparece restaurado em 4K após décadas de relativa invisibilidade, mas porque sua redescoberta obriga a rever certas narrativas consolidadas sobre a história do cinema brasileiro. Exibido na mostra Olhares Clássicos da 15ª edição do Olhar de Cinema, em Curitiba, o longa surge como uma espécie de elo perdido entre tradições cinematográficas que costumam ser tratadas como fenômenos isolados.

Frequentemente apontado como o primeiro longa-metragem de ficção sonora produzido no Rio Grande do Sul, Vento Norte poderia ser visto apenas como peça de museu. A restauração realizada pela Cinemateca Capitólio demonstra o contrário. O filme permanece vivo não pela curiosidade histórica que representa, mas pelas questões estéticas que ainda é capaz de suscitar.

Frequentemente apontado como o primeiro longa-metragem de ficção sonora produzido no Rio Grande do Sul, Vento Norte poderia ser visto apenas como peça de museu. A restauração realizada pela Cinemateca Capitólio demonstra o contrário.

A trama é simples. Em uma comunidade de pescadores no litoral gaúcho, a chegada de um forasteiro desencadeia tensões afetivas, rivalidades e conflitos latentes. O argumento remete a uma estrutura clássica: a irrupção do elemento externo que desestabiliza um universo aparentemente harmonioso. O que diferencia Vento Norte de tantos melodramas rurais da época é a maneira como Salomão Scliar desloca o centro dramático dos acontecimentos para a relação entre os personagens e o espaço que habitam.

O mar, os ventos, as dunas e os costões de Torres não funcionam como simples pano de fundo. A paisagem adquire densidade dramática. Em vários momentos, a natureza parece observar os personagens, condicionando seus gestos e delimitando seus horizontes. Há uma percepção muito física do ambiente, uma compreensão de que a geografia não é apenas cenário, mas força ativa na construção dos destinos humanos.

Cena de ‘Vento Norte’, de Salomão Scliar. Imagem: Reprodução.

Essa característica aproxima o filme de um conjunto de obras que surgiriam anos depois em diferentes cinematografias. Vista hoje, a encenação de Scliar antecipa preocupações que o Cinema Novo transformaria em programa estético: a valorização das locações reais, o interesse pelas populações afastadas dos grandes centros urbanos e a tentativa de extrair da paisagem elementos de significação social e simbólica. Não se trata de afirmar uma filiação direta, mas de perceber como certos impulsos já circulavam no cinema brasileiro antes de serem sistematizados pelos movimentos que a historiografia consagrou.

Ao mesmo tempo, Vento Norte revela uma influência evidente do neorrealismo italiano. Não apenas pelo interesse em personagens populares, mas pela forma como o cotidiano é incorporado à narrativa. Redes de pesca, embarcações, trabalho coletivo e rituais comunitários aparecem com uma espontaneidade que frequentemente ultrapassa a lógica dramática e se aproxima do registro documental. Em alguns momentos, o filme parece mais interessado em observar um modo de vida do que em conduzir sua própria trama.

Talvez resida aí seu aspecto mais interessante. O longa oscila entre a ficção melodramática e o desejo de capturar uma realidade em transformação. Essa tensão produz desequilíbrios narrativos, mas também uma autenticidade rara. O espectador contemporâneo percebe que está diante de imagens que registram não apenas personagens fictícios, mas um Brasil que já não existe.

A restauração, nesse sentido, possui um valor que ultrapassa a preservação patrimonial. Ela permite recolocar o filme em circulação crítica. Durante décadas, parte significativa da produção brasileira realizada fora dos grandes polos do Rio de Janeiro e de São Paulo permaneceu à margem dos estudos históricos. Vento Norte evidencia como essa história é mais complexa, mais fragmentada e mais rica do que normalmente se admite.

Assistir ao filme no contexto do Olhar de Cinema produz um efeito curioso. Em um festival dedicado majoritariamente à produção contemporânea, a obra de 1951 não surge como uma relíquia. Surge como uma provocação. Ela nos lembra que o cinema brasileiro não começou onde os manuais costumam dizer que começou. E que, muitas vezes, o futuro de uma cinematografia depende justamente da capacidade de revisitar seus caminhos esquecidos.

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Tags: CinemaCinema BrasileiroCinema NovoOlhar de CinemaSalomão ScliarVento Norte

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