Depois do sucesso de Torto Arado — traduzido em mais de vinte países e consagrado por prêmios como o Jabuti e o Oceanos — Itamar Vieira Junior retornou com Salvar o Fogo, obra que consolida sua ambição literária: narrar o Brasil a partir das vozes silenciadas pela história oficial.
Se em Torto Arado acompanhávamos as irmãs Bibiana e Belonísia, agora o foco se desloca para a família de Maria Cabocla (vizinha de Belonísia), moradores da Tapera do Paraguaçu, povoado ribeirinho da Bahia marcado pela dominação do latifúndio e pelo controle simbólico da Igreja Católica. O romance é estruturado em quatro partes, com capítulos curtos narrados a partir de diferentes perspectivas, incluindo membros da família, vizinhos e personagens secundários, que ajudam a tecer uma visão complexa da vida na comunidade.
A protagonista Luzia do Paraguaçu é o centro da trama. Mulher marcada pela corcunda, ela é alvo de superstição e acusação de feitiçaria pela comunidade, enquanto carrega consigo os ensinamentos ancestrais que a conectam ao fogo — símbolo que representa tanto destruição quanto resistência. O irmão Moisés e o pai Mundinho compartilham o cotidiano difícil da família, enfrentando a escassez, a violência do latifúndio e a imposição religiosa.

O vilarejo, sob a sombra do mosteiro católico, revela um microcosmo de poder e opressão: os padres mantêm controle sobre a vida das pessoas, e os políticos só aparecem em época de eleição, oferecendo promessas que raramente se concretizam. Essa dinâmica reforça a crítica de Vieira Junior ao papel da Igreja e do Estado como mecanismos de dominação. Ao mesmo tempo, tradições indígenas e afro-brasileiras se entrelaçam na narrativa, refletindo a ancestralidade e resistência de uma população que sobrevive à marginalização e à violência histórica.
O romance acompanha eventos que misturam o cotidiano e o extraordinário: desde celebrações religiosas e rituais de cura até conflitos com coronéis e arrendatários das terras, passando por episódios de acusação de feitiçaria, abusos sexuais, disputas familiares e manifestações de solidariedade comunitária. Em cada capítulo, a narrativa evidencia como a terra dita o ritmo da vida, ao mesmo tempo em que sustenta a memória e a identidade dos que dela dependem.
O romance acompanha eventos que misturam o cotidiano e o extraordinário: desde celebrações religiosas e rituais de cura até conflitos com coronéis e arrendatários das terras, passando por episódios de acusação de feitiçaria, abusos sexuais, disputas familiares e manifestações de solidariedade comunitária.
O fogo, no livro, surge como um elemento simbólico central: é a chama dos coronéis que queima plantações e expulsa moradores, mas também a fagulha que aquece a família, conecta os vivos aos ancestrais e permite a transmissão de saberes. Em cena memorável, Luzia leva uma brasa à boca, gesto que encapsula a tensão entre destruição e preservação, dom e maldição, lembrança e esquecimento.
Com Salvar o Fogo, também vencedor do Jabuti, Itamar Vieira Junior reafirma sua habilidade de articular denúncia social e elaboração estética. Mais do que uma continuação de Torto Arado, o romance propõe uma variação temática e rítmica do mesmo compasso: a literatura brasileira contada a partir das margens, pelos vencidos, pelos esquecidos. Ao mesmo tempo, estabelece um diálogo profundo com a ancestralidade, a terra e a fé, convidando o leitor a refletir sobre memória, justiça e resistência.
SALVAR O FOGO | Itamar Vieira Junior
Editora: Todavia;
Tamanho: 320 págs.;
Lançamento: Abril, 2023.
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