A rejeição é uma experiência básica do ser humano. Mas talvez nunca tenhamos tido tantas formas diferentes e específicas pelas quais podemos ser rejeitados. O incensado Rejeição (editora Fósforo, 2026; tradução de Isadora Sinay) – finalista na categoria de ficção do National Book Award em 2024 – coletânea de seis contos do escritor estadunidense de origem tailandesa Tony Tulathimutte é, até o momento, a obra que melhor define como as formas de vergonha e inadequação se multiplicaram por conta do universo mágico e diabólico gerado a partir da existência da internet em nossas vidas.
Desde que o livro foi lançado, a imprensa o repercutiu de muitas maneiras, chegando a chamá-lo de “primeira obra incel” (o frisson começou com a publicação em 2019 do conto “O Feminista”, que narra a história de um jovem articulado e consciente – mas virgem – que aos poucos vai se afastando das pautas progressistas que apoia e passa a culpar as mulheres pelos seus problemas). A riqueza de Rejeição, entretanto, é que ele vai muito além disso.
Há uma lógica bem engendrada no livro de Tulathimutte, que vai entrelaçando os personagens dos seis contos. Em comum, claro, há o fato de que eles se sentem, por uma razão ou outra, injustiçados: o mundo lhes deve mais do que eles estão obtendo. Tornaram-se párias sociais por conta das circunstâncias (por ser homem em um mundo “condenado” pelo feminismo, por exemplo, ou por ter origem asiática e viver nos Estados Unidos). Mas nenhum deles consegue se implicar nas dores que os atingem.
O talento de Tony Tulathimutte nos entrega uma escrita sofisticada, em que são empregadas diferentes vozes, gerando uma certa dificuldade para que possamos reconhecer qual é o ponto de vista pretendido pelo autor. Carregado de humor, Rejeição vai nos sugerindo que há uma forte carga de deboche sobre aqueles coitados que parecem completamente delusional, ao mesmo tempo em que deixa claro: todos nós somos potencialmente ridículos. Inclusive o autor.
‘Rejeição’ ou como a internet estragou a nossa vida

É lugar comum já apontar o quanto a internet modificou a experiência humana em todos os sentidos. Desde o primeiro sonho da aldeia global de Pierre Lévy, o que as décadas seguintes nos mostraram foi o potencial do ambiente online para destruir muitas coisas (como a autoestima de cada um de nós e a sensação permanente de insatisfação quando espiamos o dia inteiro a grama do outro em suas redes sociais), mas também de inaugurar novas formas de solidão, que frequentemente se travestem do oposto, a sensação de fazer parte de um grupo.
Em entrevista à jornalista Marie Declercq na revista Quatro Cinco Um, Tulathimutte afirma que “o problema é que a internet se tornou um compactador de lixo para nossa vida pessoal, profissional e social”. Todos os contos de Rejeição apontam aos efeitos do estilo de vida “cronicamente online” que fazem com que os personagens (e, consequentemente, nós também) se sintam pior do que se só existissem no mundo da realidade concreta.
Os personagens de Rejeição funcionam como arquétipos de losers que se tornam (ou aceitam se tornar) socialmente desfavorecidos no mundo contemporâneo. Um deles é o sujeito heterossexual de “O Feminista”, conto que abre o livro. É um homem que supostamente fez tudo certo: estudou, buscou esclarecimento, entendeu as pautas feministas e agiu proativamente para respeitar e defender os direitos das mulheres.
Mesmo tendo jogado conforme as regras do jogo, os frutos não chegaram: ele não tem as características certas (seus ombros são estreitos e ele parece um “guarda-chuva fechado” – uma imagem hilária) e é tão politicamente correto que as mulheres não se atraem por ele. O caminho meio óbvio, supostamente, é a revolta para a qual ele parece caminhar.
Ao encerrar sua obra, Tony Tulathimutte deixa claro que estamos diante de um dos jovens autores mais inventivos e inspirados que pipocaram no mercado editorial.
Mas a vergonha não escolhe gênero. Em “Fotinhas”, temos Alison, uma jovem meio perdida na vida que acaba transando com o melhor amigo. Quando o indivíduo resolve que não vai seguir com o caso, ela começa a entrar numa espiral de autodestruição, num conto em que as melhores partes acontecem num grupo de WhatsApp que ela compartilha com as “amigas”.
Numa bela jogada, Alison é personagem também em “Nosso Futuro Irado”, outro conto calcado no deboche que apresenta um empreendedor/ coach que fala um clichê atrás do outro, e que não consegue entender por que as mulheres não estão dispostas a topar o estilo de vida “irado” que ele oferece a elas de bom grado, sem cobrar nada em troca.
Provavelmente o ápice de Rejeição chega em “Ahegao”, conto centralizado em um gay chamado Kant, que é um “virgem asiático gago, de rosto redondo e viciado em pornografia, na casa dos 30 anos”. Mesmo se sentindo um excluído, Kant vai em busca de amores convencionais que tendem ao fracasso por conta de seus fetiches sexuais bastante específicos.
A irmã de Kant aparece em seguida no conto mais surreal do livro, o qual narra a história de uma jovem asiático-americana absurdamente autoconsciente que dedica a própria vida a criar personas online só para causar – e acaba constituindo assim uma identidade em que ela mesma já não é mais uma pessoa, mas sim um avatar (ou dezenas deles).
Ao encerrar sua obra com um metatexto (uma carta de rejeição ao seu próprio livro Rejeição), Tony Tulathimutte deixa claro que estamos diante de um dos jovens autores mais inventivos e inspirados que pipocaram no mercado editorial nos últimos tempos. Um comentarista do seu tempo no qual precisamos ficar de olho.
REJEIÇÃO | Tony Tulathimutte
Editora: Fósforo;
Tradução: Isadora Sinay;
Tamanho: 288 págs.;
Lançamento: Março, 2026.
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