Sucesso internacional de público, Backrooms: Um Não-Lugar deve ser apresentado (com o perdão do trocadilho) pelo seu background: o filme nasceu sob as mãos de um jovem youtuber de 21 anos chamado Kane Parsons, que em 2022 ganhou fama ao publicar uma websérie de mesmo nome. Essa série, por sua vez, surgiu a partir de uma creepypasta, termo usado para designar lendas urbanas criadas por várias pessoas na internet, em uma elaboração coletiva.
Os tais backrooms, conforme essa imaginação, seriam um local fictício, situado em algum espaço paralelo, e composto por intermináveis salas vazias, com chão acarpetado e lâmpadas fluorescentes amareladas. Para quem viveu nos anos 1980, é fácil associá-los aos escritórios sem personalidade que vicejaram nessa época (não por acaso, Backrooms tem feito os espectadores pensarem na série Ruptura).
Ao cair nas graças da A24, Parsons foi convidado para levar as assustadoras backrooms para o cinema. Nessa obra, ele imagina uma história situada em 1990, por meio de dois personagens solitários. Clark (Chiwetel Ejiofor, indicado ao Oscar por 12 Anos de Escravidão) é um arquiteto frustrado que ganha a vida com uma loja popular na qual vende móveis de segunda categoria. Abandonado pela esposa, ele agora bebe e faz psicanálise com Mary (Renate Reinsve, de Valor Sentimental).
A terapeuta, por sua vez, carrega sua parcela de traumas de infância. Ambos se aproximam por serem sujeitos extremamente sozinhos, que convivem apenas com si mesmos. Enquanto Clark dorme dentro da própria loja, Mary faz suas refeições em frente à TV enquanto assiste aos infomerciais gravados pelos dois: ele, como um empresário que faz publicidade vergonhosa ao estilo “o gerente ficou louco”; ela, como uma autora de autoajuda que promete ensinar novos caminhos cerebrais para superar os problemas.
A história de fato começa quando Clark, ao investigar problemas na conta alta de luz de sua loja, encontra uma passagem na parede do seu estabelecimento. Ela dá acesso a esse espaço lúgubre e solitário, absolutamente vazio, em que salas infinitas parecem se acumular, criando um labirinto. O fato de que não há nada ali provoca a sensação de que o horror está à espreita.
‘Backrooms’ como comentário sobre os medos modernos
Filmes de horror costumam reverberar mais à medida em que parecem repercutir elementos do seu tempo, funcionando como alegorias do presente. Em certos momentos, Backrooms pode remeter a Videodrome, clássico de David Cronenberg de 1983 que enxergava as novas tecnologias surgentes (como a televisão e o videotape) como uma “nova carne” que modificaria a essência humana.
Mais de quarenta anos afastam os filmes e hoje o cenário é outro. As tecnologias de comunicação realmente nos alteraram, conforme previa Cronenberg, em um sentido que enxergava um futuro grotesco em que os estímulos midiáticos se fundiriam com nossa carne – o que de fato aconteceu, a julgar pela nossa propensão a modificações estéticas.
Mas o que Kane Parsons parece querer discutir em seu filme é o resultado social de tantas interferências: além de modificar nossos corpos e nossas imagens, as tecnologias nos tornaram incapazes de compartilhar muitas experiências em comum, e acabou nos acorrentando a uma solidão que hoje parece insuperável.
Talvez não seja por acaso que o diretor de Backrooms tenha apenas 21 anos. O que ele parece enxergar no filme é um cenário de esvaziamento de sentidos de futuro.
Clark e Mary, ao adentrar nos backrooms, parecem mergulhar, na verdade, nos seus mundos internos, filtrados por suas memórias. Um olhar possível seria ver essas salas como o inconsciente com o qual eles não conseguem lidar, pois lá é que ficam armazenadas as experiências que os modificaram – e que, não por acaso, estão distorcidas. O roteiro, inclusive, dá pistas disso.
Mas outra leitura possível é entender Backrooms como um comentário geracional. Embora retrate personagens um pouco mais velhos, talvez não seja um detalhe menor que o diretor tem apenas 21 anos. O que ele parece enxergar no filme é um cenário de esvaziamento de sentidos de futuro. Os personagens centrais não têm vida fora do trabalho, e suas relações sociais são praticamente inexistentes. Já os personagens mais jovens (uma dupla que é contratada por Clark para fazer vídeos de sua loja) são produtores de conteúdo sem profissão definida, nem qualquer sugestão de alguma ambição em relação às suas vidas.
O sucesso de Backrooms pelo mundo (o filme custou US$ 10 milhões e, até o momento, já arrecadou US$ 363,1 milhões) sugere que ele tenha tocado em algum ponto nevrálgico da cultura. E esta deveria ser a vocação de todo bom filme de horror.
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