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A improvável entrevista de Regina e Gabriela Duarte

Entrevista de Regina e Gabriela Duarte ao jornal 'Folha de S.Paulo' provoca reflexões sobre o funcionamento do jornalismo e a tensão entre a cultura e a política.

porMaura Martins
27 de agosto de 2026
em Televisão
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Regina e Gabriela Duarte: duas atrizes postas à prova. Imagem: Reprodução.

Regina e Gabriela Duarte: duas atrizes postas à prova. Imagem: Reprodução.

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Eventualmente, algum conteúdo que nasce dentro da editoria de cultura ganha alguma repercussão para além do seu nicho – que, de modo geral, não costuma ir parar no campo das hard news. Mas uma inusitada comoção foi gerada em torno da entrevista concedida por duas atrizes, Regina Duarte e Gabriela Duarte, ao repórter Matheus Rocha no jornal Folha de S.Paulo, à ocasião da estreia da peça das duas, A Filha Da…

Qualquer um que acompanhe a história da cultura popular televisiva sabe que elas não são atrizes quaisquer. Regina inscreveu por definitivo seu nome na teledramaturgia brasileira, e será eternamente lembrada por personagens em novelas icônicas, como as de Manoel Carlos, ou séries visionárias como Malu Mulher. Já Gabriela trilhou uma carreira ao lado da mãe até se afastar de sua sombra, mas será sempre mencionada como a Eduarda, a filha de Regina na dramática Por Amor.

Chega-se então à questão: por que o protocolar lançamento de uma peça de teatro gerou tanta grita? Há vários fatores que concorrem aqui, e que merecem sim uma análise mais detalhada por quem se interessa pelos fenômenos da comunicação.

Há o aspecto mais óbvio que precisa ser apontado de cara. A entrevista repercutiu porque Regina é convocada pelo repórter para discutir a sua passagem relâmpago como Secretária de Cultura no governo de Jair Bolsonaro, posição na qual ficou por apenas três meses. Em meio a perguntas sobre a peça e sobre a carreira das duas, Rocha tenta inserir indagações sobre este período.

Regina até tenta responder, mas claramente é cortada pela filha – que age como alguém que tolhe um idoso meio senil de dizer alguma bobagem em público. Isso traz certo tom cômico à cena, mas também algo desrespeitoso. A entrevista, vale lembrar, foi empacotada no YouTube com um título provocativo: “Tensões entre mãe e filha e fantasmas do bolsonarismo”. A intenção do jornal de apelar ao polemismo, até aqui, já está clara.

No total, a entrevista da Folha, que é veiculada na íntegra no YouTube, dura cerca de 30 minutos. Há perguntas sobre a história das atrizes, sobre curiosidade de Por Amor, sobre a sua relação como mãe e filha e sobre a peça que elas agora começam a fazer. Mas boa parte do tempo é dedicado a perguntas sobre a brevíssima trajetória política de Regina – que, no pouco espaço que lhe resta, após as intervenções da filha, ela insiste em dizer que não lhe afetaram em nada. Há ainda as tentativas de especulação se Regina pretende agora apoiar Flavio Bolsonaro.

Chama a atenção o estado em que o jornalismo cultural do país se encontra, em que foi naturalizado que entrevistas domesticadas, com perguntas aprovadas e controladas por assessoras, sejam consideradas a regra.

A polêmica levantada acerca desse episódio diz respeito a muitas coisas, mas uma delas envolve o direito do jornalista de colocar perguntas que não foram pré-combinadas. O embate entre Gabriela Duarte, Matheus Rocha e a assessoria das atrizes (que não aparece, mas cuja voz é vazada no vídeo) gira em torno do argumento de que a Folha foi convidada com uma agenda definida, mas que não estava sendo cumprida.

Matheus se defende dizendo que ele, por sua profissão, tem o direito e dever profissional de perguntar o que quiser, e que elas têm o direito de não responder. É uma explicação lógica, mas cuja execução também não é vantajosa para as atrizes, por motivos que explicarei mais adiante.

O direito de perguntar

O argumento contrário, claro, é que uma atriz do calibre de Regina Duarte, e que, mesmo por um período muito breve, ocupou o posto mais alto da cultura no país, não pode se furtar da responsabilidade que foi assumida frente à população e a seus colegas de profissão. Isso estará sempre marcado na sua trajetória, e talvez a única maneira de escapar disso seja deixar de ser uma pessoa pública.

Ainda que a entrevista tenha um certo tom de “armadilha” (a sensação de que o repórter foi até lá munido de uma pauta “escondida” e que tentaria colocar de alguma forma, o que não é exatamente um problema, embora levante dilemas éticos), creio que há um imbróglio mais complicado aqui. Chama a atenção o estado em que o jornalismo cultural do país se encontra, em que foi naturalizado que entrevistas domesticadas, com perguntas aprovadas e controladas por assessorias, sejam consideradas a regra e não a exceção.

E é para isso que precisamos olhar com mais atenção, e não ao fato de que elas foram (ou não) constrangidas pelo repórter ou pelo jornal. Se há ali a sensação de constrangimento, ela se dá porque nos desacostumamos com jornalistas fazendo perguntas “de verdade”, confrontativas, que buscam respostas que ainda não se têm.

Jornalistas que incomodem por suas perguntas, e não por quererem causar: estes precisam voltar a ser mais comuns.

Imagem: Reprodução.

Quando a Folha de S.Paulo publica esta entrevista na íntegra, mantendo os “cacos” (as briguinhas de mãe e filha, com as quais qualquer um pode se identificar; as arestas desconfortáveis das duas com o repórter) e editando o vídeo com um trilha que remete a uma comédia de Woody Allen, ela quebra um protocolo já estabelecido para entrevistas super controladas, editadas, sem quaisquer surpresas (ou aquelas que, quando há alguma espontaneidade, soam forçadas, como se buscassem apenas engajar nas redes sociais).

Tudo isto dito, também deve-se pontuar que é preciso ter cuidado em não reduzir Regina Duarte à sua história recente – a tachá-la apenas como uma pessoa conservadora ou bolsonarista, corroborando com um cancelamento coletivo que apaga todo o resto da sua profícua carreira, que a consolidou como uma das grandes. É possível não gostar mais da pessoa e, ainda assim, reconhecer a sua importância para as artes e para as formas pelas quais o país se enxerga.

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Tags: A Filha Da...Folha de São PauloGabriela DuarteManoel CarlosRegina DuarteTeatro

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