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Kauê Persona encontra Leminski pela palavra em ‘Línguas de Dragões’

'Línguas de Dragões', espetáculo inspirado em Paulo Leminski, encontra na atuação de Kauê Persona a força para transformar palavra, corpo e presença em uma experiência teatral de rara intensidade.

porPaulo Camargo
9 de setembro de 2026
em Teatro
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Kauê Persona vive Paulo Leminski. Imagem: Zuca Alvino / Divulgação.

Kauê Persona vive Paulo Leminski. Imagem: Zuca Alvino / Divulgação.

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Há interpretações que impressionam porque permitem reconhecer, quase concretamente, o trabalho que existe por trás delas. O domínio do corpo, a voz, o ritmo, as pausas, a concentração, a maneira como um gesto aparentemente banal ajuda a construir uma personagem. E há outras, muito mais raras, diante das quais esse aparato técnico parece desaparecer. Não porque não esteja ali — provavelmente porque chegou a um grau extraordinário de elaboração —, mas porque já não se deixa perceber como mecanismo. É quando o ator atravessa uma fronteira.

Línguas de Dragões – entre vistas de p. leminski, com direção de Roddrigo Fôrnos, codireção e atuação de Kauê Persona, encontra sua força justamente nesse território. Dizer que Persona interpreta Paulo Leminski é correto, mas insuficiente. Dizer que o imita seria reduzir brutalmente a natureza de seu trabalho. Não há a preocupação de reproduzir o poeta por meio de uma coleção de gestos reconhecíveis, muito menos de transformar sua figura numa caricatura afetiva de um dos personagens mais emblemáticos de Curitiba.

Persona procura outra coisa: chegar a Leminski pela palavra. E talvez esteja justamente aí a principal inteligência do espetáculo.

A dramaturgia, assinada por Persona e Fôrnos, parte de uma entrevista concedida por Leminski ao jornalista Aramis Millarch, em 1982, e incorpora fragmentos de outras conversas do poeta. A montagem não pretende organizar uma biografia nem percorrer didaticamente sua trajetória. Em vez de explicar Leminski, procura colocá-lo novamente em movimento. Interessa menos reconstituir aquilo que aconteceu ao escritor do que recuperar a maneira como ele pensava, falava, provocava e fazia as palavras se chocarem umas contra as outras.

Essa escolha permite que Línguas de Dragões escape de uma das armadilhas mais recorrentes dos espetáculos dedicados a figuras célebres: a reverência. Leminski está ali, mas não como monumento.

Surge contraditório, engraçado, insolente, amoroso, erudito, popular e, por vezes, excessivo. Um poeta capaz de fazer Bashô, Joyce, Maiakovski, poesia concreta, contracultura, publicidade, filosofia, rock e botequim conviverem dentro da mesma cabeça — e, principalmente, da mesma língua.

Kauê Persona como Leminski. Imagem: Zuca Alvino / Divulgação.

Talvez tenha sido essa uma das grandes aventuras de Leminski: compreender que a língua portuguesa não precisava ser tratada como peça de museu. Podia ser desmontada. Sua literatura nasce dessa liberdade, que Kauê Persona encontra em cena.

Seu trabalho impressiona porque a distância entre ator e personagem vai diminuindo sem jamais recorrer à simples imitação. Não se trata de parecer Leminski, mas de encontrar uma frequência capaz de aproximá-lo do poeta. A respiração participa da dramaturgia. As pausas têm peso. A voz muda de registro, acelera, recua, explode e silencia. Há momentos em que o pensamento parece estar sendo formulado naquele exato instante, diante da plateia.

A técnica permanece ali, evidentemente, mas deixa de chamar atenção para si. Persona alcança algo mais difícil: faz com que o espectador esqueça o trabalho necessário para que aquilo aconteça. Seu corpo passa a carregar a palavra, o humor, as contradições e a inquietação de Leminski. É nessa entrega, construída com precisão e sem perder o controle da cena, que Línguas de Dragões encontra alguns de seus momentos mais bonitos.

Há rigor por trás dessa intensidade. Persona domina as mudanças de ritmo, compreende o valor do silêncio e sabe quando conter uma energia que, abandonada ao excesso, poderia transformar Leminski numa sucessão de explosões performáticas. É justamente o movimento entre expansão e recolhimento que confere espessura à interpretação. O espaço em que o espetáculo acontece não é um detalhe.

Essa escolha permite que Línguas de Dragões escape de uma das armadilhas mais recorrentes dos espetáculos dedicados a figuras célebres: a reverência. Leminski está ali, mas não como monumento.

Instalado na Rua São Francisco, no centro histórico de Curitiba, o SFCO 179 parece prolongar para fora da cena alguma coisa do próprio universo leminskiano. Não se trata apenas de um endereço. A rua, com suas camadas de tempo, seus bares, seus personagens, seus ruídos e contradições, estabelece uma relação particular com um poeta cuja obra nunca esteve separada da cidade. Há algo de especialmente adequado em encontrar Leminski ali, distante da solenidade dos grandes palcos, num espaço de proximidade em que ator e público praticamente compartilham a mesma respiração.

A escala reduzida favorece a montagem. Não há distância suficiente para que o espectador se proteja. Vê-se o esforço físico, o suor, percebe-se a mudança da respiração, acompanha-se cada pequena alteração do rosto de Persona. A proximidade transforma a atuação numa experiência menos contemplativa e mais física. Leminski não aparece ao longe. Está a poucos metros.

Roddrigo Fôrnos compreende as possibilidades desse espaço e evita preenchê-lo desnecessariamente. A encenação não tenta competir com a palavra nem aprisionar o ator numa reconstrução ilustrativa. Cenografia, figurino, iluminação e sonoridade participam da criação de uma atmosfera que se modifica continuamente, acompanhando os deslocamentos do texto e do intérprete. Tudo parece responder à natureza da própria palavra leminskiana.

Há nela erudição sem solenidade. Pensamento sem sisudez. Uma palavra capaz de ser profunda sem perder a graça, filosófica sem abandonar a rua, sofisticada sem esconder o prazer do jogo. Biblioteca e botequim ocupam o mesmo território. Disciplina e desobediência também.

Por isso, seria pouco enxergar Línguas de Dragões apenas como um espetáculo sobre Paulo Leminski.

A montagem é também uma reflexão sobre a necessidade da poesia e, por extensão, sobre o lugar da arte e do pensamento. Recupera algo essencial da obra do escritor: a percepção de que trabalhar com a linguagem significa interferir na maneira como enxergamos e organizamos o mundo. A poesia, nesse sentido, não aparece como ornamento.

Ela bagunça as coisas. Introduz a dúvida onde havia certeza. Obriga a olhar outra vez para aquilo que parecia conhecido. Cria atalhos, desvios, buracos. Leminski sabia que uma palavra colocada no lugar inesperado podia alterar uma frase inteira — e que uma frase, às vezes, é capaz de alterar a maneira como alguém olha para a vida.

Sua poesia frequentemente assume a aparência da brincadeira, mas a brincadeira nunca é inocente. Há por trás do jogo verbal uma inteligência inquieta e uma permanente recusa da acomodação. Talvez seja por isso que tantos de seus versos tenham escapado do tempo em que foram escritos. Não ficaram presos à página. Continuaram circulando.

Persona entende essa inquietação e faz dela o motor de sua interpretação.

A técnica permanece ali, evidentemente, mas deixa de chamar atenção para si. Persona alcança algo mais difícil: faz com que o espectador esqueça o trabalho necessário para que aquilo aconteça. Seu corpo passa a carregar a palavra, o humor, as contradições e a inquietação de Leminski.

O resultado é uma atuação de enorme entrega física, mas também de precisão. Cada mudança de ritmo reorganiza sua relação com o espaço. A palavra não está separada do corpo: nasce dele. As pausas não interrompem o discurso; ampliam seu sentido. O silêncio, em alguns momentos, torna-se tão expressivo quanto o texto.

Essa compreensão é fundamental para que a encenação não se transforme num recital dramatizado. O teatro aparece justamente no encontro entre palavra, corpo, espaço e presença.

E talvez esteja aí a dimensão mais bonita de Línguas de Dragões. O espetáculo parte de uma figura profundamente reconhecível, incorporada ao imaginário cultural brasileiro e à própria memória de Curitiba, para chegar a algo muito simples: um ator diante de uma plateia, ocupando um pequeno espaço e tentando fazer com que palavras escritas e pronunciadas décadas atrás voltem a respirar.

Em Línguas de Dragões, essa transformação ocorre quando os elementos da montagem passam a respirar juntos. Interpretação, direção, dramaturgia, luz, som e espaço deixam de pedir atenção separadamente e começam a pertencer à mesma pulsação.

O espetáculo não transforma Paulo Leminski em estátua. Faz exatamente o contrário. Devolve-lhe movimento. E encontra em Kauê Persona o corpo necessário para que isso aconteça.

Ao final, importa menos saber quanto aquele homem sobre o palco se parece com Paulo Leminski. O que permanece é outra coisa: a impressão de que, durante algum tempo, aquelas palavras antigas voltaram a ser pronunciadas pela primeira vez.

Na Rua São Francisco, tão perto de uma Curitiba que Leminski conheceu, amou, ironizou e transformou em matéria de poesia, isso adquire uma força particular.

O poeta não precisa voltar.

A palavra ainda está aqui.

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Tags: Aramis MillarchKauê PersonaLínguas de DragõesPaulo LeminskiRoddrigo FôrnosTeatro

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