• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Teatro

Crítica: Hamlet – Processo de Revelação – Festival de Curitiba

porFrancisco Mallmann
24 de março de 2016
em Teatro
A A
Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

Harold Bloom, crítico de arte e pesquisador, ao escrever sobre Hamlet, na obra Shakespeare – The invention of the Human¹, diz que ao vermos ou lermos o texto do dramaturgo inglês, logo percebemos que o príncipe da Dinamarca transcende a peça, ainda que, segundo ele “transcendência” não seja uma noção fácil para muitos de nós, “principalmente quando se trata de um contexto secular, como a dramaturgia shakespeariana”*, ele diz. Mas, “algo em Hamlet nos atinge como uma demanda (e uma providência) de evidências de uma esfera de algo além de nosso escopo de sentidos”. O autor usa o termo “desproporção” para caracterizar uma suposta distância entre o príncipe, Hamlet, e toda a peça de Shakespeare – “o fenômeno Hamlet” está enraizado na cultura ocidental e isso faz com que a dramaturgia que o provém seja menor, bem menor, do que ele mesmo.

São considerações semelhantes às de Bloom que esse Hamlet – Processo de Revelação, efetivamente, revela. A montagem é apresentada enquanto uma conversa: é por isso que as luzes da plateia não se apagam, é por isso que Emanuel Aragão pergunta as horas e uma porção de outras coisas ao público –  pessoas, de início, assustadas e temerosas e, depois, aptas a dizer, no meio de peça, em alto e bom som, que se perderam na história, “talvez porque algumas pessoas se levantaram para sair”. Sim, o processo de revelação parece residir nisso: é processual, e a medida em que coisas são reveladas, debandar é, para alguns, inevitável. Revelação dói, revelação faz doer, a peça parece me dizer.

A abrangência da narrativa de Hamlet, bem como uma identificação complexa e entranhosa, é o que torna possível, talvez, que a tragédia de vingança seja inteiramente desconstruída. Mais do que recursos interpretativos – ofertar uma nova tradução, apresentar pontos de discordância frente a outras leituras da obra – a peça constitui-se como um entrecruzamento de narrativas. São várias, de fato.

A performatividade existente em se apresentar um Hamlet, ao mesmo tempo, comentado, analisado e, ainda, em diferentes nuances e intensidades, interpretado, torna a peça uma experiência coletiva radical.

A autobiografia (ou, ainda, a autoficção) é o elemento que permite que aquele príncipe, das quatro mil linhas de Shakespeare, seja esse intérprete, bem aqui, na minha frente. E não só: a história pessoal dele, desse homem, é um convite para que, no menor espaço possível, eu também encaixe a minha vivência de príncipe da Dinamarca. Dada a intersecção entre as histórias, ainda são incluídas outras, a medida que a rede de significação, que tem como polo a dramaturgia de Shakespeare, atinge terrenos e contextos outros. A invenção da humanidade parece conter, também, a reinvenção dela. Faz sentido, ainda, outra vez, mais uma vez, a tragédia secular – e, mais do que isso, o espetáculo também nos faz ver que é possível, ainda, outra vez, mais uma vez, uma nova leitura.

A performatividade existente em se apresentar um Hamlet, ao mesmo tempo, comentado, analisado e, ainda, em diferentes nuances e intensidades, interpretado, torna a peça uma experiência coletiva radical – não só porque estamos expostos e falando alto, radicalidade suficiente para um público acostumado ao breu, mas porque nos é exigida uma concentração analítica: “vem comigo” o ator parece dizer, incessantemente, “isso tudo é sobre nós”.

E as pessoas vão. Há lágrimas, aqui e ali. Isso porque, talvez, elas estejam descobrindo que uma peça de teatro também pode falar, assim, declaradamente, sobre coisas. A ficção, a qual muitas esperavam ver, dá lugar para a discussão às claras e, oh!, ela tem a sua força! As sensações de Hamlet, quando enunciadas, promovem no espectador um movimento iniciado no palco – para falar de uma dramaturgia secular eu irei, antes, contar uma breve história minha. Para falar sobre geografias e humanos distantes no espaço e no tempo, eu irei me referir a esse exato momento que, juntos, estamos construindo. Teatro, brutal, com as luzes de serviço acesas.

SERVIÇO | Hamlet – Processo de Revelação

Quem: Coletivo Irmãos Guimarães;
Onde: Sesc da Esquina | Rua Visconde do Rio Branco, 969;
Quando: 24 de março, quinta, às 21h;
Quanto: R$70 e R$35 (meia) + taxas.

 

¹ BLOOM, Harold. Shakespeare: the invention of the human. New York: Riverhead Books, 1999

*As traduções apresentadas nesse texto foram feitas pelo autor, isto é, não são oficiais.

Tags: Adriano GuimarãesColetivo Irmãos GuimarãesCrítica TeatralEmanuel AragãoFernando GuimarãesFestival de CuritibaFestival de Teatro de CuritibaHamlet - Processo de RevelaçãoTeatroWilliam Shakespeare

VEJA TAMBÉM

'Peça sobre Peças' tem dramaturgia de Francisco Mallmann e direção de Fernando de Proença. Imagem: Vitor Dias / Divulgação.
Teatro

‘Peça sobre Peças’ propõe teatro como memória em estado de dúvida

28 de abril de 2026
Registro de 'Piracema', do Grupo Corpo. Imagem: Humberto Araújo / Divulgação.
Teatro

Crítica: ‘Piracema’ e o Corpo que insiste no movimento – Festival de Curitiba

14 de abril de 2026
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Em 'O Adversário', Emmanuel Carrère reconta um dos crimes mais chocantes da história da França. Imagem: Andreu Dalmau / Reprodução.

‘O Adversário’: a história real de um homem que matou para sustentar uma mentira

29 de maio de 2026
Bárbara Lennie e Victoria Luengo dão vida a Elsa e Patricia no nome filme de Pedro Almodóvar. Imagem: El Deseo / Divulgação.

‘Natal Amargo’ transforma memória e luto em ficção melancólica

28 de maio de 2026
O escritor estadunidense de origem tailandesa Tony Tulathimutte. Imagem: Vincent Tullo / The Guardian / Reprodução.

‘Rejeição’, de Tony Tulathimutte, é o livro do ano

22 de maio de 2026
Zazie Beetz encara demônios em 'Eles Vão Te Matar'. Imagem: New Line Cinema / Divulgação.

‘Eles Vão Te Matar’ diverte como terrir, mas é mais do mesmo

19 de maio de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.