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Home Crônicas Eder Alex

O corpo

porEder Alex
19 de agosto de 2016
em Eder Alex
A A
"O corpo", crônica de Eder Alex

Imagem: Reprodução.

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Certa manhã encontraram um corpo bem ali no corredor da empresa. Não dava pra saber direito quem era, pois o crachá estava no bolso da camisa e todo mundo ficou meio assim de mexer. Alguns disseram que ele era do financeiro, mas o pessoal da tesouraria disse que com certeza ele era do marketing, já um funcionário da comunicação afirmou de pé junto que já tinha visto o sujeito trabalhando no setor de compras. Enfim, ficou por isso mesmo.

O caso é que lá estava um corpo no meio do caminho que levava à copa. Se fosse perto do almoxarifado, talvez não causasse tanto furdúncio, mas quando uma coisa se interpõe entre o ser humano e o seu café, algo precisa ser feito a respeito disso.

As pessoas foram se aglomerando.

Numa averiguação rápida, constataram que o fulano usava terno e gravata, como todos ali, que ele deveria ter a mesma idade da maioria dos presentes e, vejam só, calçava o mesmo tipo de sapato. O que destoava um pouco era o fato de que havia muito sangue cobrindo a orelha. Tiro na cabeça, ele mesmo. A arma ainda enroscada no dedo inerte.

Alguém comentou sobre a questão da pólvora na mão, que seria importante numa investigação. Aquele que estava ao lado riu e disse que isso era besteira. Outro falou que não era besteira nada e que inclusive já tinha visto num episódio do CSI que isso era bem importante. Alguém lá no fundo disse que o CSI Miami era melhor que o Vegas, no que muitos discordaram e então estabeleceu-se um caloroso debate incluindo afirmações de que o final do Lost era ridículo e que o suicida não pode entrar no céu, pois tem toda uma questão de protocolo divino para deixar de existir etc.

Então estabeleceu-se um caloroso debate incluindo afirmações de que o final do Lost era ridículo e que o suicida não pode entrar no céu, pois tem toda uma questão de protocolo divino para deixar de existir etc.

A falação só foi interrompida quando um funcionário resolveu tomar uma atitude: sacou do bolso uma trena (veio num kit que ele ganhou no dia dos pais) e se abaixou, quase pisando na mancha de sangue. Todos ficaram em silêncio, se afastaram e observaram o homem medir a distância entre o corpo e a parede oposta. Constatou-se que o cadáver não chegava a atrapalhar completamente a circulação, bastava evitar passar por ali em duplas ou apenas dar um pulinho.

Todos se sentiram aliviados e voltaram para os seus afazeres. O problema parecia realmente ter sido resolvido, mas depois de uma troca de mensagens no grupo da empresa, a ampla maioria concordou que aquele tom de vermelho não combinava com as persianas beges e que aquilo era muito fora de padrão. “Imagina se chega uma auditoria externa?”

Então, pensando até numa questão de sustentabilidade, a diretoria incumbiu os estagiários de cobrirem o corpo com papel rascunho. Foram necessários dois ou três relatórios de balancetes anuais.

Ficou excelente, apesar da bagunça que fazia quando entrava vento, só que o problema ainda não estava resolvido.

“E o fedor?”, disseram na fila do cartão ponto.

Como aquela era uma empresa que incentivava a pró-atividade, no dia seguinte cinco colaboradores foram trabalhar usando terno, gravata e máscaras de gás.

Pronto.

Pouco tempo depois a empresa adotou a máscara como parte do traje de trabalho e hoje os funcionários já nem reparam naquele montinho de carne podre e cheia de vermes que fica no corredor.

Tags: cadávercorpoCrônicamortetrabalho

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