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‘Sem Rastros’ é um road movie sobre desapegos e amadurecimento

Com suas “pinceladas” de ‘Capitão Fantástico’ e ‘Na Natureza Selvagem’, ‘Sem Rastros’, de Debra Granik, é uma mostra radical de vida alternativa à civilização urbana que desemboca em uma metáfora da própria vida.

porTiago Bubniak
1 de setembro de 2020
em Cinema
A A
Sem Rastros, de Debra Granik

Pai e filha vivem isolados no meio de uma floresta. Imagem: Reprodução.

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O início de Sem Rastros (2018) lembra Capitão Fantástico (2016), de Matt Ross. Pai e filha moram isolados no meio de uma floresta, investindo em uma vida alternativa ao ambiente urbano e à educação formal de adolescentes, numa espécie de acampamento permanente no seio da natureza. A filha de treze anos é ensinada pelo pai a ler e a escrever, tem livros (nos quais aprende, por exemplo, que cavalos marinhos encontram-se todos os dias para reforçar os laços afetivos), sabe cozinhar, consegue fazer fogo por meio de fricção e aprende várias outras lições de sobrevivência na selva. E na vida, por extensão.

Sem Rastros (…) mostra-se uma metáfora da vida, repleta de laços afetivos que são reforçados ou rompidos, novas relações que são estabelecidas, descobertas e redescobertas constantes e uma inquietude que inspira o movimento contínuo.

O pai, no caso, é Will (Ben Foster). A filha é Tom (Thomasin Harcourt McKenzie). Ele é um ex-soldado que sofre de estresse pós-traumático depois de ter enfrentado uma guerra e, por essa razão, resolve fugir da cidade em meio à selva. Sua tendência ao desapego da civilização (não de modo tão completo e profundo, é verdade), lembra Na Natureza Selvagem (2007). Com roteiro e direção de Sean Penn, Na Natureza Selvagem é baseado nas memórias de Christopher Johnson McCandless (Emile Hirsch) que, logo após a formatura, largou família, carreira promissora, conforto, carro e dólares e partiu para uma espécie de (re)descoberta, como o título entrega, em meio à natureza.

Sem Rastros está longe de ter o encanto de Capitão Fantástico e Na Natureza Selvagem, mas não deixa de ser um exemplar, mesmo que menor, da lista de filmes que fazem pensar sobre o desapego do supérfluo, a euforia do consumismo e o refúgio da convivência social tóxica. Dirigido por Debra Granik e com roteiro da própria diretora, em parceria com Anne Rosellini, esse road movie é baseado no livro My Abandonment, de Peter Rock, que, por sua vez, é inspirado em uma história real.

A selva na qual Will e Tom moram é, na verdade, a reserva natural do Forest Park, na cidade de Portland, no Estado de Oregon, nos Estados Unidos. Trata-se de um terreno público. Como morar em propriedade pública é ilegal, os dois, após serem descobertos pela polícia e por uma assistente social, são conduzidos de forma forçada para uma vida mais próxima à civilização. O estresse pós-traumático de Will originado na guerra faz dele um permanente inquieto e, dessa forma, logo estão ele e filha em busca de uma nova moradia. O roteiro, enriquecido por uma direção de fotografia que privilegia intensamente o verde dos ambientes naturais, investe boa parte de seu tempo em mostrar essa busca constante de um novo paradeiro para os dois protagonistas.

Enquanto buscam traçar uma trajetória desprovida de vestígios, como o título deixa claro, Will e Tom mergulham em um percurso rumo à maturidade de uma e à cura de outro, não sem percalços. Sem Rastros, nesse sentido, mostra-se uma metáfora da vida, repleta de laços afetivos que são reforçados ou rompidos, novas relações que são estabelecidas, descobertas e redescobertas constantes e uma inquietude que inspira o movimento contínuo. Ou a calmaria, mesmo que momentânea.

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Tags: Capitão FantásticoCinemaCríticaCrítica CinematográficaCrítica de CinemaDebra GranikNa Natureza SelvagemResenhaReviewSem Rastros

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