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O incômodo necessário de ‘Sniper Americano’

'Sniper Americano', de Clint Eastwood, revela leituras mais complexas e menos superficiais sobre a história de um franco-atirador americano.

porPaulo Camargo
22 de fevereiro de 2015
em Cinema
A A
Bradley Cooper sniper americano clint eastwood

Bradley Cooper interpreta Chris Kyle em cena de 'Sniper Americano'. Imagem: Divulgação.

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O mais óbvio é enxergar em Sniper Americano uma patriotada acrítica, uma exaltação ao espírito belicista e interventor dos Estados Unidos mundo afora. Particularmente, acho que, embora faça sentido e seja fácil de defendê-la, essa é uma leitura preguiçosa do filme de Clint Eastwood, cujo nacionalismo republicano todos conhecem e permeia, de certa maneira, toda a sua obra como diretor e ator. Não é novidade para ninguém, fã ou não, portanto. Mas acho que o filme tem matizes, um evidente tom de desencantamento do protagonista, o franco-atirador Chris Kyle (Bradley Cooper), com o projeto de uma nação que ele mesmo verbaliza ser “a maior de todo o mundo”. Isso parece passar meio batido para quem se revolta com o que vê na tela, e faz uma leitura ideológica, senão dogmática, da obra.

Eastwood, embora demonstre inegável compaixão pelo seu protagonista, está longe de retratá-lo como herói monolítico. Pelo contrário: é fraturado, ingênuo, inconsistente nas suas falsas certezas. Patético, enfim.

A rapidez com que Kyle se alista após os ataques do 11 de Setembro, o desconforto com que lida com a reverência de seus companheiros de armas, que o consideram uma “lenda”, a inconsistência evidente com que justifica todas as mortes pelas quais foi responsável em suas incursões no Iraque. Eastwood, embora demonstre inegável compaixão pelo seu protagonista, está longe de retratá-lo como herói monolítico. Pelo contrário: é fraturado, ingênuo, inconsistente nas suas falsas certezas. Patético, enfim. O breve reencontro dele com seu irmão mais novo, corroído por uma guerra estúpida, na qual não acredita, é uma breve, porém emblemática, e profundamente perturbadora evidência da complexidade de Sniper Americano.

Incomoda-me, sim, que Mustafá (Sammy Sheik), o atirador que age em nome do inimigo, um personagem fascinante, não tenha voz. Sabemos que foi atleta olímpico, que tem uma família, mas lhe é negado um arco dramático que o humanize: é quase uma máquina de matar, a personificação do mal sem consciência. Ao contrário de Kyle. É um dos pecados do filme, como a injustificada glorificação da bala que mata o sniper muçulmano, cuja trajetória escapa ao tom realista da narrativa enxuta, não exibicionista, de Eastwood. Ainda assim, penso que o filme mereça ser julgado com bem menos pressa. Rende pano para muitas mangas.

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Tags: AfeganistãobannerBradley CooperChris KyleCinemaClint EastwoodCríticaEstados UnidosIraqueOsama Bin LadenOscarOscar 2015Sammy SheikSniper AmericanVideo

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