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‘O Cidadão Ilustre’ é mergulho na Argentina profunda

'O Cidadão Ilustre' traz o brilhante Oscar Martinez no papel de um escritor vencedor do Nobel que volta à terra natal para reencontrar seu passado.

porPaulo Camargo
24 de agosto de 2017
em Cinema
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'O Cidadão Ilustre' é mergulho na Argentina profunda

Imagem: Reprodução.

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A literatura argentina legou ao mundo escritores gigantescos, como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, mas nem um nem outro venceu o Nobel da Literatura. Os cineastas Gaetón Duprat e Mariano Cohn resolveram, pelo menos na ficção, corrigir esse equívoco no ótimo O Cidadão Ilustre, longa-metragem que colecionou prêmios ao redor do mundo desde o ano passado, quando foi lançado em sua terra natal.

Na sequência de abertura do filme, Daniel Mantovani (Oscar Martinez, excelente) recebe, com relutância, a láurea. Em seu discurso, agradece o reconhecimento, mas não esconde sua visível frustração: acredita que o prêmio, ao mesmo tempo em que o coloca em um panteão de ilustres, o condena a uma espécie de morte criativa em vida. Se sua obra alcançou esse grau de unanimidade, é porque seus livres já não desafiam, ou incomodam. Vaidade e pesar se misturam em sua fala, recebido com perplexidade e, depois, entusiasmo.

Passados cinco anos desde o Nobel, Mantovani vive em Barcelona. Vive soterrado por convites para eventos literários ao redor do mundo. Todo o querem e o inevitável acontece: não consegue mais escrever nada que preste e se encontra em um estado permanente de enfado. Até que é informado de uma homenagem inusitada que o tira de zona de conforto.

A pequena cidade no interior da província de Buenos Aires, onde nasceu e sobre a qual escreveu em toda a sua obra, quer conceder-lhe o título de “Cidadão Ilustre”, e ele, depois de décadas sem por os pés na localidade, decide aceitar a honraria. Parece ter concluído que está na hora de voltar às raízes. E é sobre esse amargo regresso que trata o ótimo longa de Duprat e Cohn.

E é sobre esse amargo regresso que trata o ótimo longa de Duprat e Cohn.

Salas é pouco mais do que um povoado, congelado no tempo, mergulhado no conservadorismo, e o reencontro de Mantovani com sua própria história, que se inicia de maneira quase cômica, com direito a desfile em carro (de bombeiros) aberto pela cidadezinha, aos poucos se transforma em pesadelo. Há, esperando por ele, um bocado de orgulho por suas conquistas, mas também muito ressentimento. A Salas de sua obra tornou-se maior do que a do mapa. Seus conterrâneos querem chegar perto, e desfrutar de sua fama e prestígio.

Mantovani vai reencontrar Irene (Andre Frigueno), seu grande amor se juventude, agora casada com Antonio (Dady Brieva), amigo de adolescência cuja existência ele nem lembrava mais. A reaproximação trará surpresas, algumas dolorosas.

Martinez, premiado como melhor ator no Festival de Veneza do ano passado, brilha em um papel no fio da navalha, que beira a antipatia. Não há excessos em seu desempenho, só precisão. Grande sucesso de bilheteria na Argentina, o longa, coprodução com a Espanha, venceu recentemente, em Madri, o Prêmio Platino de Cinema Ibero-Americano, nas categorias de melhor filme, ator e roteiro, todos muito merecidos. É uma obra muito potente sobre o confronto entre o local e o universal, e as limitações da arte como representação da realidade.

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Tags: argentinaCinemaCrítica CinematográficaCrítica de CinemaFestival de VenezaGaetón DupratMariano CohnNobel de LiteraturaO Cidadão IlustreOscar Martinez

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