Semanas antes das calorosas discussões em torno da série 13 Reasons Why, da Netflix, e do polêmico “jogo” da Baleia Azul, o cineasta Aly Muritiba filmava em Curitiba, no litoral do Paraná e em São Paulo o longa-metragem Ferrugem, que tem estreia prevista para 2018. O filme, da produtora paranaense Grafo Audiovisual com coprodução da Globo Filmes, aborda a exposição da intimidade na internet a partir da experiência dos adolescentes.

O roteiro, assinado pelo próprio Aly em parceria com Jessica Candal Sato, reúne muitas experiências acumuladas pela dupla ao longo de suas carreiras. “Tanto eu quanto a Jessica fomos professores de adolescentes durante um tempo. Nós, que crescemos antes da popularização da internet e do uso desenfreado das redes sociais, falávamos muito sobre o quanto as fronteiras entre a vida privada e o perfil público estão misturadas hoje em dia, com todas as implicações positivas e negativas que isto traz. Foi mais ou menos daí que veio a ideia de fazer um filme que abordasse este tema”, revela o diretor em entrevista à coluna “Vale um Like”.
Consciente das particularidades da adolescência, Aly se propôs a trazer à tona o impacto provocado pela internet nesta fase conturbada da vida. “Neste meio, podemos ser o que quisermos. Podemos criar e propagar uma autoimagem que eventualmente é falsa, apesar de satisfatória na superfície. No meio virtual, somos todos felizes, lindos, magros, seguros. No entanto, a vida real segue acontecendo lá fora e se não formos educados para a frustração, para a tristeza e para o erro quando as coisas fogem do programado, elas são sentidas como demasiadamente insuportáveis”, comenta Muritiba.
‘Tivemos três meses de casting e o processo foi muito enriquecedor, pois os adolescentes traziam para próximo de nós, de maneira muito concreta, ideias que ainda estavam muito abstratas no roteiro.’
O elenco de Ferrugem reúne nomes como Enrique Diaz e Clarissa Kiste, além de um time de jovens atores que passou por uma maratona de testes e preparação. “Tivemos três meses de casting e o processo foi muito enriquecedor, pois os adolescentes traziam para próximo de nós, de maneira muito concreta, ideias que ainda estavam muito abstratas no roteiro. Tendo testado mais de 400 jovens, selecionamos cerca de 30, que passaram por uma oficina de sensibilização e atuação”, fala Aly Muritiba.
Giovanni de Lorenzi, da série 171 – Negócio de Família, do Universal Channel, e Tifanny Malaquias lideram o elenco jovem, que reúne vários talentos da cena curitibana – como Pedro Inoue, Vitor Hugo do Amaral, Igor Augustho e Nathan Diego Milléo Gualda. A direção de fotografia ficou sob responsabilidade do português Rui Poças.
Aly Muritiba faz questão de ressaltar que Ferrugem não é um filme que se possa classificar simplesmente como “adolescente”, no sentido de tornar as coisas mais leves, palatáveis ou gráficas. “Eu fiz um filme com adolescentes e espero que eles vejam e possam discutir os temas abordados”, reitera.

Para o cineasta, trazer à berlinda assuntos como o suicídio não é tarefa fácil. “Requer muito cuidado, pesquisa e responsabilidade, coisas que, nem de longe, a série sensacionalista 13 Reasons Why faz”, opina.
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Em termos de cinema brasileiro, Aly acredita que mais iniciativas como Ferrugem podem colaborar com o crescimento do mercado audiovisual no país. “Investir em filmes voltados para o público jovem significa investir em formação de público, ou seja, formar futuros consumidores de cinema nacional”, avalia.
Ainda em torno da temática jovem, Aly Muritiba tem um projeto que deve chegar à tevê também este ano. Em parceria com Jandir Santin, o cineasta dirigiu a série Nóis por Nóis, que fala sobre a vida dos adolescentes na periferia da capital paranaense.